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A CRISE DAS PROPOSTAS E A GUERRA DAS ACUSAÇÕES: O debate da Band entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tinha tudo para ser um espaço de confronto de ideias, apresentação de propostas e esclarecimento sobre os rumos que cada candidato pretende dar ao Brasil. Afinal, disputar a Presidência da República exige mais do que frases de efeito, dedo em riste e acusações de lado a lado. Exige conteúdo, equilíbrio e, principalmente, respeito ao eleitor. Mas, pelo que se viu, o Brasil assistiu a um espetáculo em que as propostas ficaram nos bastidores e as acusações ocuparam o palco principal. Se a intenção era convencer o eleitor, faltou combinar isso com os protagonistas. Lula, em alguns momentos, procurou apresentar realizações de seu governo e defender o que pretende fazer em um eventual novo mandato. Demonstrou familiaridade com os assuntos nacionais e tentou sustentar a postura de quem conhece a máquina pública. Isso não significa que esteja acima das críticas — muito pelo contrário. Quem ocupa a Presidência precisa responder por seus erros, explicar suas escolhas e apresentar soluções para os problemas que continuam afetando a população. Já Flávio Bolsonaro, na avaliação desta coluna, desperdiçou uma oportunidade importante. Em vez de dedicar mais tempo à apresentação de seu plano de governo, preferiu apostar no confronto direto, com acusações e provocações que, quando não acompanhadas de provas e explicações consistentes, pouco contribuem para o debate democrático. A Presidência não é palco para comportamento de moleque. Gestos provocativos, interrupções e demonstrações de arrogância podem até render cortes para as redes sociais, aplausos da própria torcida e manchetes instantâneas. Mas governar um país com milhões de problemas exige muito mais do que saber atacar o adversário diante das câmeras. Em determinados momentos, a postura de Flávio passou a impressão de que o objetivo era vencer o embate pessoal, e não demonstrar preparo para assumir o comando do país. A cena chegou a lembrar um candidato mais preocupado em seguir o roteiro do confronto do que em apresentar, com autonomia e clareza, o que faria caso chegasse ao Palácio do Planalto. E aqui cabe uma pergunta incômoda: se o candidato pretende governar o Brasil, por que não aproveitar o tempo de televisão para explicar como pretende fazê-lo? Cadê as propostas para a saúde, a segurança pública, a educação, o emprego, a inflação e o custo de vida? O eleitor não paga suas contas com acusações, nem enche o carrinho do supermercado com provocações eleitorais. Lula, por sua vez, procurou preservar uma postura mais próxima à de um chefe de Estado, embora também tenha perdido a paciência em alguns momentos. E convenhamos: ninguém tem sangue de barata. Ainda assim, a experiência de quem já ocupa a Presidência deveria servir para transformar provocações em oportunidades de demonstrar equilíbrio, responder com argumentos e colocar os problemas nacionais acima das disputas pessoais. O episódio deixa uma lição para os dois lados: debate presidencial não é campeonato de quem grita mais alto, acusa mais vezes ou faz a expressão mais debochada. É uma oportunidade de mostrar ao eleitor quem tem as melhores ideias, o preparo necessário e a capacidade de tomar decisões em momentos difíceis. O Brasil não precisa de um presidente que transforme cada discordância em briga de recreio. Precisa de alguém capaz de ouvir, negociar, decidir e assumir responsabilidades. O debate da Band deixou uma sensação amarga: havia tempo para discutir o futuro do país, mas boa parte dele foi consumida pelo passado, pelas acusações e pela tentativa de desqualificar o adversário. Faltou apresentar o Brasil que cada um quer construir. Sobrou a disputa para ver quem conseguia desqualificar mais o outro. POR PAULO DE TARSO - JORNALISTA

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