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VOTO DE PROTESTO NÃO BASTA: A eleição de 2026 começa a mostrar que o eleitorado brasileiro pode estar procurando algo além da velha disputa entre os mesmos grupos políticos.
O exemplo mais recente está na corrida presidencial. Augusto Cury, que aparecia com apenas 2% em uma pesquisa, saltou para 11% no levantamento seguinte. É uma subida expressiva e que merece ser analisada com cuidado.
Mas o que explica esse crescimento?
Seria uma migração de indecisos? Uma reação à polarização? Uma escolha espontânea por uma alternativa diferente? Ou uma parcela da população simplesmente procurando um nome para não votar em Lula ou Flávio Bolsonaro?
A resposta ainda não está pronta.
Pesquisa eleitoral é fotografia. E fotografia, como todo mundo sabe, registra apenas aquele momento. Até a eleição, muita água ainda vai passar por baixo da ponte.
O crescimento de Cury, entretanto, revela algo que os partidos tradicionais não deveriam ignorar: existe gente cansada da briga permanente entre dois polos.
O cidadão está cansado de escolher entre “esse” ou “aquele” apenas porque não quer o outro. Está cansado de campanha baseada em medo, ataques, rótulos e guerra nas redes sociais.
E aqui está o ponto.
Protestar é legítimo. Escolher sem saber o que está escolhendo é outra história.
A democracia permite que qualquer pessoa rejeite determinado candidato, grupo ou projeto político. O que não parece razoável é transformar a eleição em uma espécie de vingança eleitoral.
“Não quero Lula, então voto em qualquer outro.”
“Não quero Flávio, então voto no primeiro que aparecer.”
Isso não é necessariamente uma escolha política. Pode ser apenas rejeição.
E rejeição, sozinha, não governa país.
O Brasil precisa de menos torcida organizada e mais cobrança. Precisa de cidadão perguntando quem está por trás de cada candidatura, quais são as propostas, quem vai governar, como será formado o governo e de onde sairão as soluções prometidas.
Porque discurso bonito não falta.
Promessa também não.
Na época de eleição, até problema antigo ganha maquiagem nova.
Nas redes sociais, então, a coisa fica ainda mais perigosa. Um vídeo bem editado, uma frase de impacto e um bom algoritmo podem transformar desconhecido em fenômeno eleitoral em questão de dias.
Mas popularidade digital não é sinônimo de preparo para governar.
Assim como ser conhecido há décadas não é garantia de competência.
É preciso olhar para o conjunto.
O eleitor tem liberdade para escolher uma terceira via. Pode escolher Cury, Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Essa liberdade é justamente uma das forças da democracia.
O que não pode é entregar o voto como quem entrega um cheque em branco.
O crescimento de Cury pode ser apenas uma onda passageira ou pode representar algo maior: o nascimento de uma alternativa capaz de romper a polarização.
Ainda é cedo para cravar.
Mas é tarde para fingir que nada está acontecendo.
A política brasileira deveria prestar atenção.
Quando uma candidatura sai de 2% e chega a 11% em tão pouco tempo, alguma coisa mudou.
Pode ter mudado a estratégia da campanha.
Pode ter mudado a percepção pública.
Pode ter mudado o humor das redes.
Ou pode ter mudado o próprio humor do país.
Agora resta descobrir se esse movimento tem raízes profundas ou se é apenas mais uma onda dessas que aparecem na política, fazem barulho e desaparecem antes de chegar à praia.
Uma coisa, porém, precisa ficar clara: não votar em alguém é uma escolha; saber por que se está escolhendo outro é responsabilidade.
E essa diferença pode decidir a eleição.
Porque depois da campanha vem o governo.
Depois do discurso vêm as decisões.
E depois da festa eleitoral vem a conta.
E essa, como sempre, chega para todo mundo.
Por Paulo de Tarso - Jornalista/Editor
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