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Piso do magistério avança e expõe a resistência de prefeitos à valorização do professor

Foto: PMPVH

Redação A Gazeta de Rondônia

Texto: Paulo de Tarso

Enquanto educadores celebram ganho real após anos de arrocho, gestores municipais contestam reajuste e ignoram atraso estrutural na valorização da educação básica

A elevação do piso salarial nacional do magistério para R$ 5.130,63, oficializada por medida provisória do governo federal, reacendeu um debate antigo no país: afinal, quem paga a conta da educação e quem colhe os frutos do abandono histórico da carreira docente?

O reajuste de 5,4%, válido para professores da rede pública de educação básica com jornada de 40 horas semanais, foi comemorado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) como resultado direto da mobilização da categoria. O aumento representa ganho real, acima da inflação medida pelo INPC de 2025, que fechou em 3,9%.

Para a CNTE, o novo valor ainda está longe do ideal, mas sinaliza um avanço em um cenário marcado por baixos salários, sobrecarga de trabalho e pouca atratividade da profissão. Dados internacionais colocam o Brasil entre os países que pior remuneram professores, mesmo exigindo formação superior e responsabilidade central no futuro do país.

“Não se trata de privilégio, mas de um passo mínimo para reconhecer quem sustenta a educação pública”, avaliam dirigentes da entidade.

Prefeitos reagem — e miram o custo, não o problema

Do outro lado do balcão, prefeitos reagiram com veemência. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) afirmou que o reajuste pode gerar impacto de até R$ 8 bilhões nos cofres municipais, classificando a medida como desequilibrada do ponto de vista fiscal.

O discurso, no entanto, foi recebido com críticas por educadores e especialistas, que veem na reação dos gestores mais uma tentativa de transferir responsabilidades. Para eles, o debate ignora que o piso salarial é uma obrigação legal, com regras claras de correção anual, e não um favor concedido pelo governo federal.

A Frente Nacional de Prefeitos (FNP), que reúne grandes municípios, também demonstrou preocupação, defendendo que qualquer aumento deveria vir acompanhado de maior aporte financeiro da União. Embora reconheça a importância da valorização docente, a entidade alerta para riscos ao equilíbrio fiscal local.

O piso do magistério segue critérios definidos em lei, levando em conta a inflação e o comportamento das receitas vinculadas ao Fundeb, fundo que financia a educação básica. A norma garante, inclusive, que o reajuste nunca seja inferior à inflação do ano anterior — justamente para evitar perda de poder de compra.

Especialistas lembram que grande parte das dificuldades enfrentadas hoje pelos municípios decorre de anos de planejamento precário, uso político da educação e falta de prioridade real para o setor. O salário do professor, nesse contexto, costuma ser tratado como despesa incômoda, e não como investimento estratégico.

Na prática, o embate expõe um paradoxo conhecido da sociedade brasileira: todos defendem a educação nos discursos, mas poucos aceitam pagar o preço da valorização de quem está em sala de aula. Professores seguem acumulando funções, enfrentando salas superlotadas e infraestrutura deficiente, enquanto o debate se concentra quase exclusivamente no impacto financeiro.

A medida provisória já está em vigor e ainda precisará ser analisada pelo Congresso Nacional. Até lá, o país assiste a mais um capítulo de uma história repetida: professores comemoram um avanço modesto, prefeitos reclamam do custo, e a educação segue esperando ser tratada como prioridade — não como problema contábil.

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