Violência de gênero persiste e cresce no país, mesmo após 10 anos da lei que tornou o crime hediondo
Por Paulo de Tarso – Jornalista
O Brasil atravessa um dos momentos mais graves da sua história no combate à violência contra mulheres. Em 2025, o país registrou 1.518 feminicídios, o maior número desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015. Na prática, os dados revelam uma realidade brutal: quase quatro mulheres foram assassinadas por dia apenas por serem mulheres.
Os números oficiais foram divulgados em fevereiro de 2026 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e confirmam que, mesmo após uma década da legislação que tornou o feminicídio um crime hediondo, a violência de gênero segue em crescimento contínuo no país.
Enquanto alguns indicadores gerais de homicídio apresentaram leve retração, os assassinatos de mulheres motivados por gênero caminharam no sentido oposto, escancarando falhas estruturais nas políticas públicas de prevenção, proteção e acolhimento das vítimas.
Cenário nacional: números que chocam
Segundo o levantamento nacional, os 1.518 feminicídios registrados em 2025 superam todos os anos anteriores, consolidando o período como o mais violento da série histórica iniciada em 2015.
A Lei do Feminicídio, que transformou o assassinato de mulheres por razões de gênero em agravante do homicídio qualificado, já ultrapassou dez anos de vigência. Ainda assim, especialistas apontam que a legislação, por si só, não tem sido suficiente para conter o avanço do crime.
Organizações de direitos humanos e pesquisadores da área avaliam que a manutenção dos altos índices está diretamente ligada a fatores sociais profundos, como desigualdade de gênero, cultura machista, naturalização da violência doméstica, falhas na rede de proteção e lentidão na resposta do Estado diante de denúncias recorrentes.
O Brasil em números
Os dados nacionais ajudam a dimensionar a gravidade do problema:
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1.518 feminicídios registrados em 2025, recorde histórico
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Média de quase quatro mulheres assassinadas por dia
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Estados mais populosos, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, lideram em números absolutos de casos
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Em comparação com 2015, primeiro ano sob a vigência da lei, o aumento absoluto de casos chega a aproximadamente 200% em uma década
Além disso, levantamentos do Mapa Nacional da Violência de Gênero indicam que 718 feminicídios ocorreram apenas no primeiro semestre de 2025, o que reforça o alerta sobre a urgência de políticas públicas mais eficazes e permanentes. Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública / Agência Brasil / Poder360
Feminicídio no Brasil: uma mulher morta a cada 6 horas
O infográfico que acompanha esta reportagem mostra a evolução do feminicídio no país entre 2015 e 2025, destacando Rondônia em vermelho no mapa do Brasil devido ao alto índice proporcional de casos.
A arte utiliza ícones femininos para representar as vítimas e traz a mensagem de alerta:
“O perigo começa dentro de casa”.

Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) / Agência Brasil
Elaboração: Gazeta de Rondônia
Rondônia: quando a proporção é pior que o número
Nos estados com menor população, os números absolutos podem parecer menos impactantes à primeira vista. No entanto, quando analisados proporcionalmente, Rondônia surge entre os cenários mais preocupantes do país.
De acordo com dados regionais:
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25 feminicídios foram registrados em Rondônia em 2025
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Ajustando pela população, o estado apresenta uma das maiores taxas de feminicídio por 100 mil mulheres, estimada em 1,43
Esse índice coloca Rondônia à frente de estados mais populosos e revela que as mulheres rondonienses enfrentam um risco proporcionalmente elevado de violência letal, sobretudo em contextos de relações íntimas e familiares.
Análises anteriores já apontavam Rondônia como um dos estados com altas taxas de homicídios de mulheres, violência doméstica e estupros, indicando que o problema é persistente e estrutural.
Por que os números continuam elevados?
Para especialistas, os dados refletem dois fenômenos simultâneos: o aumento real da violência contra mulheres e a melhoria nos sistemas de registro policial e judicial. Ainda assim, o consenso é de que a prevenção segue falhando.
A maior parte dos feminicídios ocorre em ambientes domésticos, tendo como autores companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Em muitos casos, há histórico prévio de agressões, ameaças e descumprimento de medidas protetivas, o que demonstra falhas na capacidade de intervenção antes do desfecho fatal.
Organizações feministas alertam que a eficácia da lei depende de investimentos contínuos em políticas sociais, acolhimento psicológico, educação preventiva, fiscalização e fortalecimento da rede de proteção, além do enfrentamento direto à cultura machista que ainda normaliza a violência.
Quem são as vítimas além das estatísticas
Os números oficiais contabilizam apenas os casos consumados de feminicídio. No entanto, pesquisadores e observatórios apontam que a subnotificação ainda é uma realidade, especialmente em áreas rurais, regiões isoladas e comunidades com acesso limitado aos serviços públicos.
Muitas mulheres não conseguem denunciar ou sequer registrar pedidos de proteção, seja por medo, dependência financeira ou falta de estrutura institucional. Além disso, outros tipos de violência de gênero — como estupros, agressões físicas, ameaças e violência psicológica — continuam crescendo, mostrando que o feminicídio é apenas a face mais extrema de um problema muito mais amplo.
O que dizem as autoridades
Autoridades destacam a importância das ferramentas legais existentes, como medidas protetivas de urgência, programas de reeducação de agressores e canais de denúncia. Ainda assim, especialistas e ativistas afirmam que as ações adotadas não têm sido suficientes para impedir a escalada das mortes.
Para defensores dos direitos humanos, o enfrentamento ao feminicídio exige políticas públicas integradas, investimento em educação e uma mudança cultural profunda, capaz de romper com padrões históricos de violência contra mulheres.
Enquanto o país segue contabilizando estatísticas e anunciando medidas que nem sempre chegam a tempo, mulheres continuam morrendo dentro de casa, diante dos filhos, após pedidos de socorro ignorados. O feminicídio deixou de ser exceção e passou a ser rotina em muitas regiões do Brasil.
A cada novo caso, a pergunta se repete — nas redações, nas delegacias, nas famílias e na sociedade:
Até quando a violência será rotina?



