Por Redação/Polícia
Auditoria confirma desvio de R$ 12,7 milhões e caso expõe fragilidade no controle financeiro do município
Um silêncio pesado tomou conta dos corredores da Prefeitura de São Francisco do Guaporé, no interior de Rondônia, depois que a auditoria interna confirmou o que até então era tratado como suspeita: um rombo de R$ 12.798.270,00 nos cofres públicos municipais.
O valor, segundo levantamento técnico do setor de contabilidade, começou a ser desviado em abril de 2025 e se arrastou por meses até ser identificado. Para dimensionar o impacto, o montante equivale a cerca de 8.460 salários mínimos atuais, ou aproximadamente 705 anos de trabalho de um cidadão que recebe o piso nacional.
De acordo com informações apuradas junto à Polícia Civil e confirmadas por fontes da administração municipal, o principal investigado é um servidor efetivo que ocupava cargo de confiança como executor de pagamentos. A função estratégica lhe dava acesso direto às contas bancárias da prefeitura.
Como o esquema operava
A apuração aponta que os valores eram transferidos para conta pessoal do investigado, mas lançados no sistema contábil como pagamentos destinados a empresas que prestam serviços regulares ao município. A adulteração de relatórios mascarava as saídas financeiras.
A situação começou a ruir na última sexta-feira (20), quando uma conferência interna identificou um desfalque inicial de aproximadamente R$ 230 mil. O responsável pelo setor exigiu extrato bancário atualizado, documento que, segundo relato oficial, vinha sendo protelado há três dias. A inconsistência levou à verificação detalhada e, posteriormente, à constatação do rombo total.
Após a descoberta, o servidor foi exonerado do cargo comissionado e teve aberto Processo Administrativo Disciplinar. A investigação criminal segue em andamento.
Polícia Civil e Polícia Federal acompanham
O caso está sendo investigado pela Polícia Civil de Rondônia, com acompanhamento da Polícia Federal, já que parte expressiva dos recursos envolvidos tem origem em repasses federais.
O prefeito do município esteve na delegacia para formalizar a entrega de documentos e colaborar com as investigações. A Câmara Municipal também instaurou Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar possíveis falhas de fiscalização e controle interno.
Até o momento, o investigado responde ao processo em liberdade, enquanto são analisadas movimentações bancárias e eventuais responsabilidades administrativas.
O que teria motivado o desvio
Em depoimento prestado à autoridade policial, o servidor relatou que o desvio começou com pequenas quantias destinadas a apostas online. Segundo o próprio relato, a primeira retirada teria sido de R$ 300. O valor foi devolvido inicialmente, mas houve recaída e a prática se repetiu, crescendo de forma progressiva até alcançar cifras milionárias.
A Polícia trata a declaração como parte do conjunto probatório, ainda sob verificação técnica.
Especialista alerta para risco crescente das apostas online
Para entender o pano de fundo desse tipo de ocorrência, a reportagem ouviu um especialista em comportamento financeiro e dependência digital.
Segundo ele, o vício em jogos online atua de forma semelhante a outras dependências comportamentais:
“A dinâmica é progressiva. A pessoa começa com valores baixos, ganha ou perde pequenas quantias e sente necessidade de recuperar prejuízo ou repetir a sensação de ganho. Isso gera um ciclo de impulsividade e perda de controle. Quando há acesso facilitado a dinheiro, o risco de decisões ilegais aumenta.”
O especialista destaca que a dependência em apostas digitais tem crescido no Brasil nos últimos anos, principalmente pela facilidade de acesso via celular e pela falsa sensação de lucro rápido.
O caso expõe não apenas um prejuízo milionário, mas também fragilidades nos mecanismos de controle interno e a necessidade de fiscalização permanente sobre recursos públicos não só em São Francisco, mas também em todas as prefeituras e órgãos públicos.
Enquanto a investigação segue seu curso nas esferas criminal e administrativa, o município tenta reorganizar as finanças e recuperar a confiança da população.
Em cidades do interior, onde cada real faz diferença na saúde, educação e infraestrutura, um rombo dessa dimensão não é apenas contábil é estrutural.


