Especialista tira dúvida se o período religioso impacta a produção dos ovos
Com a chegada da Páscoa e o fim da Quaresma, uma crença popular ganha força: as galinhas finalmente vão voltar a botar ovos. Durante o período religioso, marcado pela substituição da carne vermelha pelo ovo, a proteína costuma ter queda de produção e chegar ao consumidor com preços elevados. Mas será que o motivo é a Quaresma?
Especialistas afirmam que a história é um mito mas com fundamentos científicos. De acordo com Márcia Portugal Santana, engenheira agrônoma e coordenadora de Pequenos Animais da Emater-MG, as aves não seguem o calendário religioso, mas são profundamente afetadas pela mudança de estação que ocorre exatamente nesta época do ano.
Fator luz e a produção de ovos
O principal responsável pela queda na oferta de ovos é o fotoperíodo (duração diária da exposição à luz solar). Durante a Quaresma, o Brasil atravessa a transição do verão para o outono, quando os dias ficam mais curtos e as noites mais longas.
“As galinhas precisam diariamente de 14h a 16h de luz para produzir ovos, porque a luz é responsável por regular e induzir o ciclo reprodutivo
Nas criações domésticas e de galinhas “pé-duras” (sem raça definida), essa redução de luminosidade pode fazer com que a postura (produção de ovos) cesse completamente. Já em linhagens industriais, melhoradas geneticamente, o impacto é menor, mas ainda existente.

Troca de penas: o ‘descanso’ das aves
Além da falta de luz, outro fator biológico coincide com o período religioso: a muda de penas. Entre fevereiro e abril, é comum que as galinhas percam as penas antigas para desenvolver novas coberturas para o inverno.
Esse processo exige um gasto energético altíssimo da ave. Como a prioridade do organismo passa a ser a renovação da plumagem e a manutenção do calor corporal devido às temperaturas em queda, a função reprodutiva — e, consequentemente, a produção de ovos — fica em segundo plano.
Por que o preço sobe?
A combinação desses fatores cria o cenário “perfeito” para o bolso do consumidor:
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Alta demanda: milhões de brasileiros aumentam o consumo de ovos para cumprir a tradição religiosa.
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Baixa oferta: as aves de fundo de quintal e produções menores reduzem o ritmo naturalmente pelo clima.
Portanto, a volta da postura normal das aves após a Páscoa não é um “milagre”, mas o resultado de um ciclo biológico que pode se estender até o fim do inverno. O mito resiste porque, para quem cria no quintal, o silêncio nos ninhos durante os 40 dias de resguardo é real.
Itatiaia


