Estudo inédito revela que doenças transmitidas pelo inseto dizimam mais de 20% da safra anual e consolidam como o maior desafio sanitário da cultura no país
O que antes era um problema secundário tornou-se uma crise econômica de grandes proporções. Um estudo conduzido pela Embrapa Cerrados, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), publicado na revista internacional Crop Protection, quantificou o rastro de destruição deixado pela cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis). Entre 2020 e 2024, o Brasil acumulou perdas de US$ 25,8 bilhões (cerca de R$ 130 bilhões) devido ao complexo de enfezamentos.
O montante é resultado de aproximadamente 2 bilhões de sacas de milho que deixaram de ser colhidas no período. Em média, o país perdeu 22,7% de sua produção anual, o equivalente a um prejuízo de US$ 6,5 bilhões a cada safra.
O custo de produção em alta
O Brasil é o terceiro maior produtor mundial do grão e um dos principais exportadores. A pesquisa cruzou dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) com levantamentos de campo em 34 municípios estratégicos. Os números mostram uma pressão crescente sobre o bolso do produtor:
- Pico de perda: na safra 2020/2021, o impacto chegou a 28,9% da produção nacional.
- Custo do controle: para tentar conter o avanço do inseto, o gasto com inseticidas saltou 19% em quatro anos, superando os nove dólares por hectare.
- Volume perdido: o Brasil deixa de produzir, em média, 31,8 milhões de toneladas anualmente por causa da praga.
Por que a praga se tornou uma epidemia?
Embora os patógenos (os enfezamentos pálido e vermelho) sejam conhecidos desde a década de 70, os surtos tornaram-se frequentes a partir de 2015. Segundo Charles Oliveira, pesquisador da Embrapa Cerrados, a mudança no sistema de produção foi o gatilho: a expansão da safrinha (ou 2ª safra, realizada após a colheita da soja) e o cultivo de milho durante quase todo o ano criaram uma “ponte verde”, permitindo que a cigarrinha e os microrganismos sobrevivam e se multipliquem sem interrupção.
“Estamos falando de perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do país”, alertou Tiago Pereira, assessor técnico da CNA.

Complexo de enfezamentos
A cigarrinha funciona como um vetor. Ao se alimentar de uma planta doente, ela absorve patógenos que atacam o sistema vascular do milho. Atualmente, os dois tipos de enfezamentos – o pálido (Spiroplasma kunkelii) e o vermelho (“Candidatus” Phytoplasma asteris) – são a maior ameaça fitossanitária à produção brasileira do grão. As duas doenças são causadas pela cigarrinha-do-milho, que também transmite os vírus do mosaico-estriado e da risca do milho.
De acordo com o pesquisador da Embrapa, o problema é agravado por não haver tratamento preventivo para essas doenças, que podem ocasionar a perda total, principalmente de lavouras cultivadas com híbridos suscetíveis.
Estratégia de defesa: manejo integrado
Como o controle químico isolado tem se mostrado insuficiente e o inseto já apresenta resistência a alguns produtos, a pesquisa reforça que a solução reside no Manejo Integrado de Pragas (MIP). As recomendações essenciais incluem:
- Eliminação do milho tiguera (plantas voluntárias que surgem na entressafra pela perda de grãos na colheita e no transporte): quebra o ciclo de vida do vetor e do patógeno.
- Sincronização do plantio: evita janelas de semeadura longas que favorecem a dispersão da cigarrinha entre as lavouras.
- Uso de cultivares resistentes ou tolerantes mantém níveis elevados de produtividade mesmo sob pressão das doenças.
- Manejo inicial com aplicação de controle químico e biológico nos estádios iniciais da planta (até V8): previne que a infecção cause danos mais severos.
- Monitoramento: implica vigilância constante e coordenada entre produtores vizinhos.

Impacto na mesa do consumidor
As consequências ultrapassam a porteira. O milho é o insumo base para a produção de proteína animal (carnes, ovos e leite) e biocombustíveis. Quando a safra quebra, os preços sobem em toda a cadeia, pressionando a inflação de alimentos e afetando a segurança alimentar.
Para Maria Cristina Canale, pesquisadora da Epagri, os dados são fundamentais para nortear o setor de seguro agrícola e políticas públicas que ajudem a mitigar os riscos de uma das culturas mais vitais para a economia brasileira.
Fonte: Itatiaia Agro


