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Cooperação Sul-Sul agricultura: entre soberania alimentar e internacionalização do agronegócio

. Foto:Carlos Rudiney/Abrapa

Programas sociais, tecnologia agrícola e disputas de modelos de desenvolvimento colocam o Brasil no centro da Cooperação Sul-Sul agricultura

Por Leila Cangussu

A Cooperação Sul-Sul agricultura se consolidou nas últimas décadas como um campo de disputa política e econômica que envolve agricultura familiar, segurança alimentar, biotecnologia e a expansão internacional de empresas ligadas ao agronegócio.

No centro desse debate está o Brasil, país que se apresenta como quarto produtor mundial de alimentos, ao mesmo tempo em que enfrenta contradições internas entre o fortalecimento da agricultura familiar e a concentração fundiária promovida pelo agronegócio.

O conceito de Cooperação Sul-Sul foi institucionalizado no sistema das Nações Unidas a partir da segunda metade do século XX, mas ganhou centralidade no Brasil sobretudo a partir dos anos 2000, quando a política externa buscou diversificação de parcerias e maior protagonismo no Sul Global.

Na área da agricultura, esse movimento se traduziu em projetos de cooperação técnica, programas de combate à fome, transferência de tecnologia agrícola e também na ampliação da presença de empresas brasileiras em países africanos, latino-americanos e asiáticos.

Cooperação Sul-Sul agricultura: origem e significado

A Cooperação Sul-Sul agricultura tem como fundamento a troca de experiências entre países em desenvolvimento. Essa modalidade foi concebida como alternativa ao modelo Norte-Sul, marcado por condicionalidades impostas por países desenvolvidos.

Em teoria, trata-se de uma cooperação horizontal, construída a partir de contextos sociais, econômicos e ambientais semelhantes. No caso brasileiro, esse formato se consolidou por meio de duas frentes principais:

Essa combinação posicionou o Brasil como referência internacional em políticas públicas de combate à fome, mas também abriu espaço para a internacionalização do agronegócio brasileiro.

O papel da Embrapa e a transferência de tecnologia

A Embrapa se tornou um dos principais atores da Cooperação Sul-Sul agricultura. Desde a criação da Embrapa África, em Gana, e da Embrapa Américas, no Panamá, a instituição vem atuando na transferência de conhecimento técnico e científico para países do Sul Global.

Entre os projetos mais relevantes estão:

  • Laboratórios de Experimentação (Labex) em diferentes regiões, voltados à pesquisa e inovação.
  • Parcerias na África para o desenvolvimento de cultivos de mandioca, arroz e soja.
  • Projetos de melhoramento genético animal em cooperação com a Nigéria, envolvendo capacitação de pesquisadores e disseminação de tecnologias tropicais.

A Embrapa atua tanto no fortalecimento da agricultura familiar quanto na expansão de cadeias ligadas ao agronegócio, o que revela a ambiguidade da cooperação brasileira.

Programas sociais brasileiros como referência internacional

A política externa brasileira transformou políticas sociais internas em instrumentos de projeção internacional. A partir dos anos 2000, iniciativas voltadas ao combate à fome e ao fortalecimento da agricultura familiar passaram a ser apresentadas como exemplos a outros países do Sul Global. Essa estratégia buscava mostrar que era possível enfrentar a fome sem depender de modelos impostos por organismos financeiros internacionais.

Entre os programas de maior impacto internacional estão o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o projeto +Algodão que, ao serem adaptados para outros países, se tornaram símbolos da Cooperação Sul-Sul agricultura.

PAA África: compras públicas como política de segurança alimentar

O Programa de Aquisição de Alimentos foi adaptado para países africanos em parceria com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a FAO.

  • Países beneficiados: Moçambique, Malauí, Senegal, Níger e Etiópia.
  • Objetivo central: conectar governos a pequenos agricultores, permitindo que os Estados comprassem alimentos produzidos localmente e os destinassem a programas de combate à fome.
  • Impactos: Criação de mercados estáveis para agricultores familiares; Redução da dependência de importações de alimentos básicos; Fortalecimento da economia rural com geração de renda em comunidades camponesas.

A lógica do PAA África se contrapunha ao modelo dominante de ajuda humanitária baseado em importações de excedentes dos países do Norte. Em vez disso, promoveu circuitos curtos de produção e consumo, alinhados ao princípio da soberania alimentar.

PNAE internacionalizado: alimentação escolar como política de Estado

O modelo do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) também foi levado para outros países, em um processo coordenado pela FAO e pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

  • Escala de implementação: 12 países da América Latina e do Caribe receberam apoio para estruturar seus programas de alimentação escolar.
  • Alcance: mais de 1,6 milhão de estudantes beneficiados.
  • Mudanças legais: países como Bolívia, Equador, Honduras, Guatemala e Paraguai aprovaram legislações nacionais de alimentação escolar inspiradas no modelo brasileiro.
  • Conexão com agricultura familiar: a principal inovação foi a exigência de que parte dos alimentos da merenda escolar fosse adquirida de pequenos agricultores, criando mercados institucionais permanentes.

Esse modelo não apenas combateu a fome estudantil, mas também ajudou a consolidar redes de agricultura familiar nos países onde foi implementado.

O projeto +Algodão e a sustentabilidade na produção

projeto +Algodão, executado pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), Embrapa e FAO, também se destacou como uma das iniciativas mais relevantes da Cooperação Sul-Sul agricultura.

  • Mais de 10 mil agricultores e 3 mil técnicos participaram de capacitações.
  • Tecnologias adaptadas, como colheitadeiras de uma linha e descaroçadoras de baixo custo, foram desenvolvidas em parceria com a Embrapa Algodão.
  • Países como Bolívia, Paraguai, Peru e Colômbia aprovaram planos nacionais de algodão inspirados nesse projeto.
  • Delegações de países africanos, como Moçambique e Mali, conheceram experiências no Brasil, em especial o cultivo de algodão colorido na Paraíba.

O projeto + Algodão mostra como a cooperação pode gerar alternativas tecnológicas adequadas às condições da agricultura familiar.

Em oito anos, o projeto +Algodão capacitou quase 10 mil agricultores familiares e mais de 2 mil técnicos em cinco países da América Latina. A nova fase, lançada em 2021, amplia ações de sustentabilidade e fortalecimento das cadeias produtivas regionais. Foto:Carlos Rudiney/Abrapa
Em oito anos, o projeto +Algodão capacitou quase 10 mil agricultores familiares e mais de 2 mil técnicos em cinco países da América Latina. A nova fase, lançada em 2021, amplia ações de sustentabilidade e fortalecimento das cadeias produtivas regionais. Foto:Carlos Rudiney/Abrapa

Agricultura familiar e governança fundiária

Outro eixo estratégico foi a cooperação em governança fundiária. Em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Brasil implementou projetos voltados para:

  • Regularização da posse da terra.
  • Criação de cadastros fundiários.
  • Produção de estudos regionais sobre administração de terras.

Essas ações são fundamentais em países onde a concentração fundiária e os conflitos agrários dificultam o fortalecimento da agricultura familiar.

Cooperação com a África

O continente africano se tornou prioridade da política externa brasileira nos anos 2000. Diversos projetos foram implementados em áreas como:

  • Produção de mandioca no Quênia.
  • Cadeia produtiva do caju em Gana.
  • Horticultura comunitária em Cabo Verde.
  • Programas de alimentação escolar em Ruanda, Libéria e Níger.

Na Nigéria, os acordos envolveram agricultura tropical e genética animal, com foco em soja, arroz e mandioca.

Apesar dos avanços, também surgiram críticas. O caso mais emblemático foi o ProSavana, em Moçambique. O projeto, desenvolvido em parceria com Japão, previa a concessão de milhões de hectares para grandes empresas agrícolas, voltadas para monocultura de soja e milho. Movimentos camponeses denunciaram riscos de expulsão de comunidades, impactos ambientais e ameaça à soberania alimentar.

O ProSavana se tornou símbolo da crítica de que a Cooperação Sul-Sul agricultura pode, em alguns casos, beneficiar empresas privadas em detrimento de agricultores locais.

Cooperação na América Latina e no Caribe

A Cooperação Sul-Sul agricultura não se limitou à África. Na América Latina e Caribe, o Brasil consolidou projetos em diferentes áreas:

  • Corredor Seco Centro-Americano: ações de mitigação da seca em El Salvador, Honduras e Guatemala.
  • Rede de Alimentação Escolar Sustentável (RAES): criada em 2018, conecta 22 países em torno da troca de práticas e políticas públicas de alimentação escolar.
  • Sistemas públicos de abastecimento: fortalecimento da Rede de Sistemas Públicos de Abastecimento e Comercialização de Alimentos (SPAA), envolvendo 18 países e contando com aporte de 500 mil dólares do governo brasileiro.

Essas iniciativas reforçam a imagem do Brasil como referência em políticas públicas de combate à fome e de fortalecimento da agricultura familiar.

Diplomacia popular: o MST e a China

Além da cooperação oficial entre Estados, também emergiram iniciativas de diplomacia popular. Em 2025, uma delegação de parlamentares e lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) esteve na China para discutir parcerias em agroecologia.

Entre os temas debatidos estavam:

  • Produção de bioinsumos derivados de resíduos urbanos.
  • Estratégias de enfrentamento da crise climática.
  • Abertura do mercado chinês para produtos da agricultura familiar brasileira, como mel, cafés especiais e frutas nativas.

Esse episódio mostra que a Cooperação Sul-Sul agricultura pode ser construída também por meio de movimentos sociais e não apenas por governos.

Primeira comitiva parlamentar do MST em visita oficial à China discutiu cooperação em agroecologia, agricultura familiar e bioinsumos, fortalecendo a diplomacia popular entre os dois países. Créditos: Divulgação/Assessoria Parlamentar – Deputado Goura (PDT-PR)
Primeira comitiva parlamentar do MST em visita oficial à China discutiu cooperação em agroecologia, agricultura familiar e bioinsumos, fortalecendo a diplomacia popular entre os dois países. Créditos: Divulgação/Assessoria Parlamentar – Deputado Goura (PDT-PR)

As três agendas em disputa

A análise da Cooperação Sul-Sul agricultura mostra que não há um único projeto em curso. Pelo contrário, coexistem três agendas que disputam espaço e financiamento:

1. Segurança alimentar

  • Defendida por organismos multilaterais como FAO, FIDA e PMA.
  • Prioriza o aumento da oferta de alimentos em quantidade e qualidade, garantindo acesso das populações vulneráveis.
  • Projetos como a Rede de Alimentação Escolar Sustentável (RAES) e o PAA África são exemplos dessa agenda, voltados à redução imediata da fome e à criação de mercados institucionais estáveis.

2. Soberania alimentar

  • Pauta levantada por movimentos camponeses e organizações da sociedade civil, como La Via Campesina e o MST.
  • Defende o direito dos povos de decidir o que e como produzir, priorizando agroecologia, biodiversidade e culturas alimentares locais.
  • Esse eixo se fortalece em iniciativas como a Declaração de Porto Alegre, que reafirmou em 2025 que 80% da produção mundial de alimentos vem da agricultura familiar, exigindo políticas específicas para mulheres e jovens rurais.

3. Agronegócio globalizado

  • Impulsionado por empresas privadas e elites políticas.
  • Baseado na expansão de monoculturas e commodities como soja, milho, carne e biocombustíveis.
  • Projetos como o ProSavana, em Moçambique, exemplificam essa lógica, ao prever a concessão de milhões de hectares para monocultura de exportação em parceria com corporações brasileiras e japonesas.

O Brasil atua simultaneamente nessas três frentes. Exporta políticas sociais que fortalecem a agricultura familiar, apoia projetos agroecológicos em parceria com movimentos populares, mas também promove a internacionalização do agronegócio. Essa ambiguidade explica tanto o reconhecimento internacional quanto as críticas recorrentes à sua atuação no campo da Cooperação Sul-Sul agricultura.

Conclusão

A Cooperação Sul-Sul agricultura se tornou uma arena de disputas em escala global. O Brasil aparece como ator central, exportando políticas sociais e tecnologias adaptadas à agricultura familiar, mas também favorecendo a expansão do agronegócio.

Projetos como o PAA África e o +Algodão demonstram o potencial transformador dessa cooperação quando orientada para a segurança e a soberania alimentar. Ao mesmo tempo, experiências como o ProSavana revelam os riscos de transformar a cooperação em instrumento de concentração fundiária e reprodução de desigualdades.

O que está em jogo é a definição de qual modelo de desenvolvimento será fortalecido: a agricultura familiar, que garante diversidade alimentar e reduz desigualdades, ou o agronegócio, que concentra terras e mercantiliza a produção de alimentos.

A Cooperação Sul-Sul agricultura, ao transpor para o cenário internacional as contradições da agropecuária no Brasil, mostra que a luta pela soberania alimentar não é apenas nacional, mas global.

ICL

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