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ISOLADA E ESQUECIDA: a BR-319 virou símbolo do abandono da Amazônia e da guerra entre desenvolvimento e preservação

Foto: Reprodução

A Gazeta de Rondônia

Texto: Paulo de Tarso

Única ligação terrestre entre Porto Velho e Manaus, a BR-319 segue presa há décadas entre promessas políticas, disputas ambientais, decisões judiciais e sofrimento de milhares de brasileiros que dependem da estrada para sobreviver. Enquanto isso, o Norte continua pagando caro pelo isolamento.

Foto: Reprodução/Turbowey

A poeira no verão e o lamaçal no inverno contam uma história que Brasília parece não ouvir. Quem percorre a BR-319 sabe que ali não existe apenas uma estrada abandonada. Existe um retrato escancarado do descaso histórico com a Região Norte.

São quase 885 quilômetros ligando Porto Velho a Manaus. Uma rodovia estratégica, construída ainda na década de 1970, mas que acabou engolida pelo abandono do poder público. Hoje, a BR-319 continua sendo uma das obras mais polêmicas e emperradas do Brasil.

No papel, ela representa integração nacional, desenvolvimento econômico e segurança logística. Na prática, virou uma guerra política, ambiental e judicial que se arrasta há décadas.

O chamado “Trecho do Meio”, entre os quilômetros 250 e 656, permanece como o principal gargalo da rodovia. É justamente ali que começam os atoleiros, os caminhões quebrados, o isolamento de comunidades e os prejuízos milionários para a economia do Norte.

Durante o inverno amazônico, motoristas chegam a ficar dias presos na lama. Ambulâncias atrasam. Alimentos encarecem. Medicamentos demoram. Pequenos produtores rurais perdem mercadorias. Famílias inteiras vivem praticamente isoladas.

Foto: Reprodução/Na Estrada

Para quem mora na região, o debate ambiental muitas vezes parece distante da realidade de quem precisa sobreviver.

Enquanto ambientalistas alertam para o risco de explosão do desmatamento, grilagem de terras e avanço do crime ambiental, moradores, caminhoneiros e empresários argumentam que o Norte não pode continuar separado do restante do Brasil.

O impasse virou um dos maiores conflitos entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico da Amazônia.

Foto: Reprodução/G1

Estudos e organizações ambientais apontam que a pavimentação completa da BR-319 pode acelerar o desmatamento em uma das áreas mais preservadas da floresta amazônica. Pesquisadores alertam que a estrada pode abrir espaço para invasões ilegais, exploração madeireira e ocupação desordenada.

Por outro lado, políticos da Região Norte defendem que o Amazonas não pode depender apenas dos rios para abastecimento e logística, principalmente após as secas severas que atingiram a Amazônia nos últimos anos.

Em 2024, durante a forte estiagem que reduziu drasticamente o nível do Rio Madeira, o debate sobre a importância da BR-319 voltou com força. O próprio governo federal reconheceu que a rodovia ganhou importância estratégica diante das dificuldades no transporte hidroviário.

Os números impressionam.

Segundo informações do governo federal, mais de R$ 257 milhões já foram aplicados em estudos, licenciamento e ações relacionadas à BR-319. Além disso, o custo anual de manutenção dos trechos não pavimentados gira em torno de R$ 30 milhões.

Mesmo assim, a obra continua travada.

A licença ambiental concedida pelo Ibama em 2022 virou alvo de disputas judiciais, recursos e ações movidas por organizações ambientais e pelo Ministério Público Federal. Em diferentes momentos, decisões da Justiça suspenderam e depois restabeleceram o processo de licenciamento.

Enquanto isso, quem vive às margens da BR sente na pele a ausência do Estado.

Relatórios recentes da Polícia Rodoviária Federal confirmaram que postos de fiscalização na rodovia funcionam de maneira precária ou esporádica. A própria PRF reconheceu falta de efetivo, deficiência logística e abandono institucional em uma área considerada estratégica para combater crimes ambientais e tráfico de drogas.

A situação gera uma contradição evidente.

De um lado, órgãos ambientais defendem maior controle para evitar devastação. Do outro, a ausência do próprio Estado abre espaço justamente para ilegalidades crescerem na região.

No meio desse embate, ficam milhares de brasileiros esquecidos.

A conclusão da BR-319 poderia reduzir custos logísticos, fortalecer o abastecimento de Manaus, integrar economicamente o Amazonas ao restante do país e facilitar o transporte de alimentos, combustíveis e insumos industriais. Também poderia impulsionar o turismo, o agronegócio e o comércio regional.

Empresários afirmam que o isolamento do Amazonas encarece produtos básicos e dificulta investimentos. Em épocas de crise climática, quando rios secam, a dependência exclusiva do transporte fluvial expõe ainda mais a fragilidade da região.

Mas os críticos da obra insistem que o Brasil não pode repetir erros históricos de ocupação desordenada da Amazônia.

É justamente aí que a BR-319 virou símbolo de um país que não consegue equilibrar desenvolvimento com preservação.

A rodovia segue presa entre decisões técnicas, interesses políticos, pressões internacionais, disputas ideológicas e burocracias intermináveis.

Reprodução

A pergunta que ecoa no meio da lama da BR-319 é simples: afinal, quem realmente não quer que essa rodovia saia do papel?

Porque dinheiro público já foi gasto. Estudos já foram feitos. Promessas políticas já sobraram. Discursos inflamados aparecem em época de eleição, ministros fazem reuniões, parlamentares dão entrevistas, mas a realidade continua exatamente a mesma: o Norte segue isolado e o Brasil continua fingindo que isso é normal.

Enquanto isso, o Congresso Nacional assiste em silêncio. Deputados e senadores aparecem em fotos, fazem audiências, criam comissões, mas poucos enfrentam de verdade o sistema burocrático e ideológico que trava a obra há décadas.

A BR-319 virou um monumento nacional da enrolação brasileira.

De um lado, órgãos ambientais, ações judiciais, relatórios intermináveis e pressões internacionais. Do outro, milhões de brasileiros pagando caro pelo abandono logístico da Amazônia. E no meio disso tudo, governos sucessivos empurrando a responsabilidade uns para os outros, sem coragem política para resolver um problema estratégico para o país.

A impressão que fica é dura: existe uma máquina burocrática poderosa funcionando com mais eficiência para travar a BR-319 do que para concluir uma obra considerada estratégica para a integração nacional.

Enquanto o Brasil discursa sobre soberania da Amazônia em eventos internacionais, milhares de ribeirinhos, indígenas, seringueiros, agricultores, moradores urbanos e comunidades tradicionais da região. continuam enfrentando lama, isolamento, prejuízos e abandono.

E a BR-319 segue exatamente como há décadas: parada entre relatórios, carimbos, disputas ideológicas e promessas políticas que nunca chegam ao fim.

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