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GESTÃO do agronegócio: quem concentra a riqueza produzida no campo brasileiro?

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O agronegócio impulsiona parte da economia brasileira, mas a renda produzida no campo não circula de forma proporcional entre produtores, trabalhadores e cidades agrícolas

O agronegócio ocupa um espaço central na economia brasileira. O setor aparece nas exportações, no crescimento do PIB, na política cambial, na expansão do crédito e nas disputas ambientais.

Em 2025, a agropecuária cresceu 11,7% e ajudou o PIB brasileiro a avançar 2,3%, segundo dados do IBGE. Soja e milho bateram recordes de produção no mesmo período.

Enquanto isso, o Brasil segue convivendo com insegurança alimentar, concentração de terras, renda e desigualdade regional. Essa contradição ajuda a explicar por que o debate sobre gestão do agronegócio vai além da produtividade no campo.

O tema envolve distribuição de renda, estrutura fundiária, financiamento público, exportações e concentração econômica e parte da dificuldade em discutir o assunto está na própria definição do setor.

O agronegócio costuma aparecer como sinônimo do produtor rural, mas a cadeia é muito mais ampla. Ela envolve bancos, tradings internacionais, fundos de investimento, empresas de logística, indústrias químicas, fabricantes de máquinas, exportadoras e plataformas financeiras.

Entender como essa estrutura funciona ajuda a responder algumas perguntas que aparecem com frequência no debate público: quem ganha mais dinheiro com o agro? A riqueza permanece nas cidades produtoras? O crescimento do setor melhora a vida da população em geral? E qual a diferença entre produzir alimento e produzir commodities agrícolas?

O que é o agronegócio?

Cada vez mais presentes no campo, os drones redefiniram as práticas de plantio, pulverização e colheita. Foto: Getty Images
Cada vez mais presentes no campo, os drones redefiniram as práticas de plantio, pulverização e colheita. Foto: Getty Images

O agronegócio não se limita à produção dentro da fazenda. O setor reúne diferentes atividades ligadas à produção, circulação, financiamento e exportação de produtos agrícolas.

Como funciona a cadeia econômica do setor?

Ela inclui produção rural, sementes e fertilizantes, máquinas agrícolas, armazenagem, transporte, exportação, crédito rural, seguros, processamento industrial e mercado financeiro.

Essa estrutura se consolidou ao longo das últimas décadas com apoio do governo federal. A expansão da fronteira agrícola recebeu investimentos em crédito rural, pesquisa agropecuária, infraestrutura logística e tecnologia.

Além disso, a transformação tecnológica alterou a escala da produção agrícola brasileira. A agricultura passou a incorporar sensores, inteligência artificial, drones, imagens de satélite e big data no monitoramento das lavouras.

Esse avanço também ampliou a integração entre o campo e o sistema financeiro. Nas últimas décadas, grandes grupos do agro operam conectados a bancos, fundos de investimento e títulos privados ligados às commodities agrícolas.

Quem controla o lucro do agro?

Grande parte da riqueza do agronegócio não permanece necessariamente com quem produz. A cadeia é organizada por diferentes agentes econômicos que atuam antes e depois da produção agrícola.

As tradings internacionais, empresas que atuam na compra e venda de produtos agrícolas no mercado global, controlam parte relevante da exportação de soja, milho e carne. Essas companhias operam armazenagem, transporte, portos e comercialização internacional de commodities. O financiamento da produção agrícola também passou a depender cada vez mais do mercado financeiro.

O avanço do mercado financeiro sobre o campo também pode ser observado nos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), títulos financeiros que permitem captar dinheiro de investidores para financiar atividades do agronegócio no Brasil, que crescem rapidamente. Em agosto de 2025, o estoque desses títulos já superava R$140 bilhões, segundo dados da Anbima.

Esse modelo aproxima o agronegócio do mercado de capitais, pois fundos e investidores passam a lucrar com a produção agrícola sem necessariamente participar da atividade produtiva.

A lógica financeira também aparece nos mecanismos de crédito rural e nos incentivos públicos. Para o ciclo 2025/2026, por exemplo, o Plano Safra destinou R$ 516,2 bilhões ao setor. Além disso, empresas do agro seguem recebendo benefícios fiscais e financiamento estatal. A Três Tentos Agroindustrial, por exemplo, recebeu aprovação de R$ 500 milhões em crédito do BNDES para construir uma usina de etanol em Mato Grosso. A empresa atua nos setores de grãos, insumos agrícolas e biocombustíveis.

O agro cresce, mas a renda se concentra

O crescimento do agronegócio não significa distribuição proporcional da riqueza produzida. Mesmo com recordes de produção agrícola e crescimento expressivo, o PIB brasileiro só avançou  2,3%, segundo dados do IBGE. Soja e milho bateram recordes de produção no mesmo período.

A concentração fundiária continua sendo uma das marcas históricas do campo brasileiro. Um estudo publicado na revista Serviço Social & Sociedade mostra que a expansão do agronegócio nas últimas décadas ocorreu acompanhada da manutenção do latifúndio e da concentração de terras nas mãos de grandes grupos econômicos.

Essa diferença aparece também na capacidade de acessar inovação tecnológica. Como se sabe, a digitalização do campo exige conectividade, máquinas e softwares caros, além de mão de obra qualificada. Enquanto grandes grupos conseguem integrar inteligência artificial, big data e agricultura de precisão, pequenos produtores enfrentam dificuldades para acessar crédito, infraestrutura e assistência técnica.

O resultado é uma cadeia produtiva em que os ganhos de produtividade tendem a se concentrar nos segmentos mais capitalizados do setor.

Agroexportação e insegurança alimentar

Parte importante da produção agrícola brasileira está voltada para exportação de commodities, especialmente soja, milho e carne.Esse modelo ajuda a explicar por que o Brasil ocupa posição relevante no mercado global de alimentos e ainda enfrenta insegurança alimentar internamente.

As commodities agrícolas funcionam principalmente como ativos de exportação. O valor da produção depende do mercado internacional, do dólar e da demanda externa. Quando a soja sobe no mercado internacional, por exemplo, produtores exportadores aumentam receita mesmo sem crescimento proporcional no abastecimento interno.

A dependência das exportações também influencia a política econômica brasileira. O agronegócio contribui para a entrada de dólares no país, equilíbrio da balança comercial e estabilidade cambial.

Esse modelo exportador, porém, vem acompanhado da expansão de monoculturas voltadas ao mercado internacional. O avanço da fronteira agrícola tem aumentado a pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis, como o Cerrado.

Um dossiê apresentado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado apontou que o bioma perdeu mais de 100 milhões de hectares até 2021, com avanço ligado à expansão da fronteira agrícola e das commodities.

Agricultura familiar X agronegócio

Segundo a Embrapa, a agricultura familiar sustenta a economia de 90% dos pequenos municípios brasileiros. Foto: Albino Oliveira - Ascom/MDA
Segundo a Embrapa, a agricultura familiar sustenta a economia de 90% dos pequenos municípios brasileiros. Foto: Albino Oliveira – Ascom/MDA

O debate sobre gestão do agronegócio costuma apagar diferenças importantes dentro do próprio campo brasileiro. Agricultura familiar, cooperativas e assentamentos rurais operam em dinâmicas diferentes da grande produção exportadora.

O assentamento Dom Tomás Balduíno, em Goiás, mostra essa diferença. Mais de 200 famílias organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) estruturaram produção agroecológica voltada para abastecimento local e programas públicos como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

A produção inclui milho, mandioca, feijão, hortaliças e pequenos animais. Parte dos alimentos abastece escolas da região. O modelo contrasta com áreas vizinhas dominadas pela monocultura da soja.

Essa diferença também aparece na distribuição da terra. Dados da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado mostram que municípios com alta concentração fundiária tendem a registrar índices elevados de pobreza rural. O relatório cita o caso de Correntina, no oeste da Bahia, que está entre os 1% dos municípios com maior concentração de terras no Brasil. Na cidade, a pobreza atinge 45% da população rural e 31,8% da população total, segundo levantamento citado pela campanha.

A discussão envolve dois modelos distintos: a produção voltada ao mercado externo e commodities e a produção ligada ao abastecimento alimentar e mercados locais.

A influência política do agronegócio

Produtores rurais estacionados ao lado do Ministério da Justiça durante os desfiles de 7 de setembro de 2022. Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
Produtores rurais estacionados ao lado do Ministério da Justiça durante os desfiles de 7 de setembro de 2022. Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo

O agronegócio também exerce influência institucional relevante no Congresso, nos governos estaduais e nas disputas judiciais por meio da atuação da chamada bancada ruralista.Essa presença aparece em debates sobre crédito rural, legislação ambiental, marco temporal e regulação fundiária.

Em 2026, entidades ligadas ao setor defenderam novamente a aprovação da tese do marco temporal como prioridade legislativa. A discussão ganhou repercussão após a divulgação de um estudo utilizado por entidades ruralistas no STF sem identificação clara de autoria e metodologia científica verificável.

A influência política do setor também se manifesta na disputa de narrativas públicas. Antes da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, empresas do agro passaram a financiar campanhas com influenciadores e personalidades brasileiras para fortalecer a imagem do setor. O debate chegou inclusive aos livros didáticos. Um professor da USP denunciou pressões para substituir o termo “agrotóxico” por “defensivo agrícola” em materiais escolares.

Esse movimento mostra que a gestão do agronegócio também envolve comunicação, lobby institucional e disputa simbólica.

Dívidas expõem fragilidades do agro

Mesmo com crescimento do PIB e recordes de produção, o setor enfrenta desequilíbrios econômicos. Em 2025, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceram 31,7%, segundo levantamento da Serasa Experian. O aumento foi associado à combinação entre juros elevados, queda no preço das commodities, custos altos de produção e endividamento crescente.

Enquanto grandes conglomerados ampliam acesso ao mercado financeiro e às exportações, produtores médios e parte das cadeias de suprimento enfrentam margens apertadas. A própria financeirização do setor amplia riscos ligados ao dólar, aos juros e ao mercado internacional.

Trabalho análogo à escravidão no campo

O crescimento econômico do setor também convive com denúncias recorrentes de violações trabalhistas.

Em 2026, uma operação do Ministério do Trabalho encontrou 586 trabalhadores em condições análogas à escravidão em obra ligada à construção de uma usina de etanol em Mato Grosso. Segundo a fiscalização, 468 trabalhadores foram identificados como vítimas de tráfico de pessoas para exploração laboral.

A investigação apontou jornadas exaustivas, alojamentos precários e sistemas paralelos de controle de horas extras.

Esse episódio ajuda a mostrar que o aumento da produtividade agrícola não garante distribuição proporcional da riqueza ao longo da cadeia de trabalho.

O poder do agronegócio na economia brasileira

O agronegócio ocupa posição estratégica na economia brasileira. O setor influencia exportações, crédito, crescimento do PIB e política cambial.

Ao mesmo tempo, a estrutura econômica da cadeia ajuda a concentrar terra, renda e capacidade de decisão em grandes grupos econômicos.

Entender a gestão do agronegócio exige observar quem controla financiamento, logística, exportação, tecnologia e infraestrutura. Também exige diferenciar agricultura familiar, cooperativas e pequenos produtores do modelo agroexportador concentrado em commodities.

Esse debate ganhou ainda mais peso em um cenário marcado por:

  • expansão da fronteira agrícola
  • financeirização da produção rural
  • disputa ambiental
  • crescimento da agricultura digital
  • pressão internacional sobre sustentabilidade
  • e aumento da influência política do setor

O agro movimenta parte importante da economia brasileira. A questão que permanece aberta é outra: quem concentra a riqueza produzida no campo e quem permanece à margem dela.

ICL

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