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A CAMISA DA SELEÇÃO não é de Bolsonaro, de Lula ou de qualquer partido: Ela pertence à história e ao Povo Brasileiro

Foto: Reprodução/sound

A Gazeta de Rondônia

Texto: Paulo de Tarso Cabral

Criada em 1953 e usada pela primeira vez em 1954, a Canarinho atravessou gerações, governos e ideologias. Transformá-la em propriedade política é confundir patriotismo com partidarismo.

A política brasileira tem produzido episódios cada vez mais curiosos. Alguns chegam a ser caricatos. Outros revelam como a polarização tem avançado sobre espaços que deveriam permanecer acima das disputas partidárias. A mais recente controvérsia surgiu após uma declaração do senador Flávio Bolsonaro, que afirmou que a tradicional camisa amarela da Seleção Brasileira seria a “camisa do Bolsonaro”. A frase, repetida por apoiadores do ex-presidente, reacendeu um debate que vai muito além de uma peça de vestuário: afinal, quem é dono dos símbolos nacionais?

A resposta parece óbvia para qualquer pessoa guiada pelo bom senso. Ninguém é dono. Ou melhor: todos são.

A famosa camisa canarinho nasceu muito antes de qualquer projeto político ligado a Jair Bolsonaro existir. Sua criação remonta a 1953, quando a então Confederação Brasileira de Desportos promoveu um concurso para desenvolver um novo uniforme para a Seleção Brasileira, após o traumático Maracanazo de 1950. O modelo criado pelo desenhista gaúcho Aldyr Garcia Schlee foi escolhido como vencedor e estreou oficialmente na Copa do Mundo de 1954, na Suíça. Desde então, a camisa amarela tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos do esporte mundial e da identidade brasileira.

Por essa razão, causa estranheza que alguém tente atribuir a esse patrimônio coletivo uma identidade partidária exclusiva. A camisa da Seleção não nasceu em um comitê eleitoral, não foi criada para servir a uma candidatura e tampouco foi desenhada para representar uma corrente ideológica específica. Sua história é muito mais ampla do que qualquer disputa política contemporânea.

É verdade que, nos últimos anos, grupos ligados à direita passaram a utilizar a camisa canarinho em manifestações políticas. Trata-se de um fato. No entanto, utilizar um símbolo não significa adquiri-lo. Participar de atos públicos vestindo a camisa da Seleção não transforma esse símbolo em propriedade privada de um grupo ou liderança política. Uma manifestação não substitui a história. Uma fotografia não equivale a uma escritura.

A lógica utilizada por quem afirma que a camisa pertence a Bolsonaro é tão frágil quanto afirmar que a bandeira nacional pertence a um partido ou que o hino nacional representa apenas um segmento da população. Símbolos nacionais existem justamente para unir pessoas diferentes sob uma mesma identidade coletiva. Quando passam a ser tratados como propriedade exclusiva de um campo político, deixam de cumprir sua função original.

A declaração de Flávio Bolsonaro revela algo preocupante sobre o atual momento político brasileiro: a tentativa constante de transformar tudo em instrumento de disputa ideológica. Nada parece escapar da polarização. Nem mesmo uma camisa de futebol que há mais de sete décadas representa a paixão esportiva de milhões de brasileiros.

O problema não está apenas na frase em si. O problema está na mensagem que ela transmite. Ao sugerir que a camisa da Seleção pertence a Bolsonaro, cria-se a falsa impressão de que brasileiros que não apoiam o ex-presidente teriam menos legitimidade para vestir um dos maiores símbolos nacionais. Trata-se de uma ideia incompatível com os princípios básicos de uma democracia plural.

A camisa canarinho atravessou governos de diferentes orientações ideológicas. Sobreviveu a crises políticas, mudanças de regime, eleições, escândalos e transformações sociais. Vestiu brasileiros conservadores, progressistas, liberais, socialistas, apolíticos e pessoas que jamais participaram de um debate eleitoral. Ela esteve presente em momentos de alegria coletiva e também em episódios de frustração esportiva. Sua história não pertence a um líder político. Pertence ao país.

Confundir patriotismo com exclusividade política é um erro que empobrece o debate público. Amar o Brasil não exige filiação partidária. Da mesma forma, vestir a camisa da Seleção não deveria funcionar como um atestado de fidelidade a qualquer grupo político.

A canarinho não é de Bolsonaro. Não é de Lula. Não é da direita nem da esquerda. Não é do governo nem da oposição.

Ela pertence ao torcedor que celebrou os gols de Pelé, ao que vibrou com Romário, ao que acompanhou a genialidade de Ronaldo Nazário e ao que ainda sonha com uma nova conquista mundial.

Em um país cada vez mais dividido, talvez seja necessário recordar uma verdade simples que deveria ser óbvia: a camisa da Seleção Brasileira não tem dono. Ela pertence à história, à cultura e ao povo brasileiro. E continuará pertencendo, independentemente de quem ocupe o poder ou dispute eleições.

 

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