Governo brasileiro estuda reação por meio da Lei da Reciprocidade, mas afirma que prioridade continua sendo a negociação diplomática
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entra em vigor nesta quarta-feira (22/07), ampliando a tensão comercial entre os dois países. A medida estabelece uma sobretaxa de 25% sobre mais de 4 mil produtos exportados pelo Brasil ao mercado americano, enquanto o governo federal avalia possíveis respostas e mantém a defesa de uma solução negociada.
A tarifa foi oficializada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que argumenta que o Brasil adota práticas comerciais consideradas prejudiciais às empresas americanas. Entre os pontos citados pelo governo dos EUA estão o Pix, mencionado diversas vezes no relatório, sob a alegação de que favorece o sistema de pagamentos brasileiro em detrimento de empresas americanas, além de críticas a decisões da Justiça brasileira que determinaram a remoção de conteúdos políticos em plataformas digitais.
Apesar da abrangência da medida, mais de 2.100 produtos brasileiros foram excluídos da sobretaxa. A lista de exceções inclui carne bovina, café, frutas, suco de laranja, fertilizantes, petróleo, gás natural, minerais, produtos químicos, insumos farmacêuticos e componentes da indústria aeronáutica.
Segundo a avaliação americana, esses produtos foram poupados porque são considerados essenciais para a economia dos Estados Unidos. Em muitos casos, o país depende das exportações brasileiras ou não possui produção interna suficiente para substituí-las rapidamente. A cobrança da tarifa poderia elevar custos para empresas americanas, provocar desabastecimento e pressionar a inflação.
A estratégia também preservou matérias-primas importantes para a indústria dos EUA, como ferro-gusa, cobre, níquel e diversos componentes utilizados na fabricação de aeronaves, além de centenas de produtos químicos empregados pela indústria farmacêutica.
Enquanto isso, os principais impactos recaem sobre a indústria brasileira de transformação, especialmente setores como siderurgia, máquinas, equipamentos, calçados e outros produtos manufaturados, que perdem competitividade no mercado americano com o aumento do custo de exportação.
Estimativas apontam que a medida pode atingir entre US$ 7,4 bilhões e US$ 11 bilhões em exportações brasileiras, o equivalente a 18% a 26% de tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos. Entidades empresariais alertam para possíveis reflexos sobre investimentos, produção industrial e geração de empregos.
Economistas também avaliam que uma redução nas exportações pode diminuir a entrada de dólares no país, pressionando a taxa de câmbio e reduzindo parte do superávit da balança comercial brasileira.
Governo avalia resposta
O governo brasileiro considera que a decisão americana tem forte componente político. O Itamaraty classificou as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos como inadequadas, enquanto o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento analisam medidas para proteger os setores afetados.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o Brasil poderá utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza a adoção de medidas comerciais equivalentes contra países que imponham barreiras unilaterais às exportações brasileiras.
Apesar disso, Alckmin afirmou que a prioridade continua sendo o diálogo.
“A ideia não é retaliação. ‘Olho por olho’, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos”, declarou o vice-presidente. Segundo ele, a reciprocidade busca corrigir uma situação considerada injusta, mas será utilizada apenas “no momento oportuno”.
O governo também discute ações para reduzir os impactos sobre a indústria nacional por meio do Plano Brasil Soberano, que prevê linhas de crédito, apoio à manutenção de empregos e iniciativas para ampliar mercados consumidores fora dos Estados Unidos.
Além das medidas internas, especialistas em comércio exterior apontam que uma das alternativas é recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar tecnicamente a decisão americana, enquanto o Brasil acelera a busca por novos parceiros comerciais capazes de absorver parte das exportações afetadas.
TMC


