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Pesquisas no divã: quem errou a conta?

Ideia e direção editorial: Paulo de Tarso Cabral | Ilustração: IA.
Da Redação

Texto: Paulo de Tarso Cabral

Os institutos apostaram na vantagem de Flávio Bolsonaro, mas Lula virou o jogo e venceu com mais de 4,4 milhões de votos de diferença. A urna, mais uma vez, mostrou que pesquisa não é profecia.

E agora, institutos de pesquisa? Alguém aí tem uma explicação — ou vão precisar contratar um instituto para descobrir o que aconteceu?

Durante boa parte da campanha do segundo turno, o eleitor brasileiro foi apresentado a levantamentos que colocavam Flávio Bolsonaro na frente de Lula. Alguns apontavam uma disputa apertada; outros davam ao candidato da direita uma vantagem que parecia confortável. Na reta final, a expectativa de vitória de Flávio ganhou força em parte do noticiário político. Mas chegou a urna, e o resultado foi outro: Lula venceu.

É claro que pesquisa não é bola de cristal. Os levantamentos retratam um momento, trabalham com amostras e margens de erro e não têm obrigação de reproduzir exatamente o resultado das urnas. Mas, quando tantos números caminham na mesma direção e o desfecho apresenta uma diferença superior a 4,4 milhões de votos, a pergunta é inevitável: o que os institutos não conseguiram enxergar?

A margem de erro não pode virar uma espécie de guarda-chuva para toda previsão que sai torta. É preciso analisar metodologia, período de coleta, perfil dos entrevistados, ponderação da amostra e, principalmente, a capacidade de captar mudanças no comportamento do eleitor.

A urna não lê planilha

A campanha de Lula conseguiu mobilizar eleitores na reta final, reforçar sua presença nas redes sociais e recuperar terreno em regiões importantes. O Nordeste voltou a ter peso decisivo, enquanto Minas Gerais e outros estados contribuíram para o resultado nacional. A vitória mostrou que a disputa não estava encerrada, por mais que algumas projeções parecessem sugerir o contrário.

Lula terminou com 64.256.232 votos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. Foram 4.430.191 votos de diferença. Não foi uma vitória por um punhado de cédulas perdidas no fundo da urna. Foi uma decisão expressiva do eleitorado.

E há outro detalhe que merece atenção: nem todo voto em Flávio significava, necessariamente, entusiasmo pessoal pelo candidato. Em uma eleição polarizada, parte do eleitorado vota por identificação, outra por rejeição ao adversário e há quem escolha o que considera o mal menor. A direita tinha condições de disputar a Presidência com força, mas fica a pergunta: teria apresentado desempenho diferente com outro nome?

É uma hipótese política legítima, não uma certeza. O eleitor não é propriedade de partido, família política ou liderança de internet. Vota em quem quiser, pelos motivos que considerar relevantes. E pode mudar de ideia quando chega à cabine de votação.

Curtida não é voto

As redes sociais também merecem uma análise menos apressada. Alcance, compartilhamentos e comentários ajudam a medir a circulação de mensagens, mas não representam automaticamente a intenção de voto de milhões de brasileiros. Campanha digital eficiente não se resume a fazer barulho; precisa transformar comunicação em confiança e confiança em voto.

Talvez essa seja uma das lições do segundo turno: o eleitor pode permanecer silencioso nas redes, desconfiar das pesquisas, evitar declarar sua preferência e, no domingo, decidir o resultado. A política real não cabe inteira em uma tela de celular.

Os institutos, portanto, precisam explicar seus números, revisar métodos quando necessário e reconhecer limitações. A imprensa também precisa evitar transformar levantamento de intenção de voto em resultado antecipado. Pesquisa é instrumento importante para compreender a eleição, mas não substitui a apuração oficial.

A urna deu seu recado. Os institutos podem continuar pesquisando, os partidos podem continuar fazendo contas e os analistas podem continuar procurando explicações. Só não podem confundir tendência com destino.

Na democracia, quem escolhe o presidente é o eleitor. E a urna não tem obrigação de confirmar o palpite de ninguém.

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