Por Luiz Felipe Pondé
O discurso de defesa das instituições perdeu força quando os próprios donos do poder passaram a colocá-las em dúvida
Veja como a história é irônica. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro por pouco mais de um ponto percentual, apresentando-se como o candidato da democracia e da defesa das instituições. Naquele momento, fazia sentido.
Havia uma direita bolsonarista que falava em fechar o Supremo Tribunal Federal, atacava a ordem institucional e transformava o 7 de Setembro em palanque político.
O argumento estava pronto: de um lado, a ameaça à democracia; do outro, quem supostamente viria para salvá-la.
Também se dizia que Bolsonaro representava uma ameaça à civilização, enquanto Lula seria a defesa do chamado processo civilizador brasileiro. Bonito no discurso. O problema é o que aconteceu depois.
Ao longo dos anos, figuras como Alexandre de Moraes passaram a ocupar o centro da defesa institucional, com decisões contra redes sociais, bloqueios de perfis e medidas justificadas pelo combate à desinformação e às ameaças contra a democracia.
Ao mesmo tempo, surgiram questionamentos sobre relações entre poder, interesses privados e instituições que deveriam justamente fiscalizar umas às outras.
O caso envolvendo o Banco Master é um exemplo dessa desconfiança. Há questionamentos públicos sobre contratos envolvendo o escritório da esposa de Moraes e o banco. As circunstâncias e responsabilidades precisam ser apuradas pelas instituições competentes, sem transformar suspeitas em condenações.
O problema é outro: a sensação de que certas perguntas simplesmente não chegam até o fim.
E aqui está a ironia.
Aqueles que diziam defender a civilização contra a barbárie política acabaram produzindo um ambiente em que uma parcela cada vez maior da sociedade olha para Brasília e enxerga apenas uma disputa entre grupos de poder.
Não acredito que o PT tenha monopólio da corrupção. Também não acredito que o bolsonarismo tenha esse monopólio. O problema brasileiro é justamente acreditar que corrupção tem partido.
No fim, temos políticos, ministros e instituições disputando narrativas enquanto a confiança pública vai para o lixo.
A democracia continua sendo importante. Talvez justamente por isso seja preciso defendê-la de todos os lados. Inclusive daqueles que dizem falar em seu nome.
Porque democracia não deveria significar confiar cegamente em quem ocupa o poder. Deveria significar justamente o contrário: ninguém estar acima da desconfiança, da crítica e da lei.
Fonte: TMC


