A Gazeta de Rondônia
Texto: Paulo de Tarso Cabral
Entre lama poeira pontes caindo e postos sem estrutura moradores dos distritos dizem que vivem longe demais das promessas da prefeitura

Enquanto a área urbana de Porto Velho recebe obras, revitalizações e ações concentradas no centro político da capital, quem mora nos distritos segue enfrentando uma realidade que parece parada no tempo. Estradas destruídas, pontes improvisadas, escolas com estrutura precária, falta de médicos, ambulâncias demorando horas e comunidades inteiras isoladas no inverno amazônico. Para milhares de famílias do baixo Madeira e da Ponta do Abunã, o sentimento é um só: abandono.
Porto Velho é hoje o maior município territorial do Brasil e possui distritos gigantescos espalhados por centenas de quilômetros. Dados populacionais apontam que distritos como Jaci-Paraná já ultrapassam os 7,7 mil moradores, Extrema passa dos 5 mil habitantes, Nova Califórnia ultrapassa 4 mil e Vista Alegre do Abunã chega próximo de 7,5 mil pessoas. União Bandeirantes, embora sem número oficial atualizado do IBGE, já possui estimativa de cerca de 25 mil moradores e é considerado um dos distritos mais produtivos economicamente do município.
Mesmo movimentando a economia com pecuária, produção de leite, agricultura, madeira, comércio e transporte, os distritos seguem convivendo com problemas básicos que atravessam gestões e mais gestões. Em muitos trechos, moradores enfrentam verdadeiros atoleiros para conseguir chegar à escola, ao hospital ou até escoar produção rural.

“Quando começa o inverno aqui ninguém sabe se consegue sair ou voltar pra casa. Tem ponte caindo, estrada virando lamaçal e caminhão atolando por dias. O povo daqui só é lembrado em época de eleição”, desabafa o produtor rural João Batista de Oliveira, morador de União Bandeirantes.
Em Extrema e Nova Califórnia, moradores reclamam que a distância da capital virou desculpa permanente para o poder público não agir. Em alguns casos, viagens até Porto Velho podem ultrapassar 300 quilômetros. O problema é que a cobrança de impostos chega rápido, mas os serviços públicos não.
“Se adoecer de madrugada aqui a gente fica na mão. Falta médico, falta remédio e muitas vezes a ambulância nem consegue passar por causa da estrada. Parece que somos invisíveis”, relata a comerciante Maria das Dores Silva, moradora de Nova Califórnia.

Os distritos da capital possuem importância estratégica para Rondônia. Grande parte da produção agropecuária que movimenta a economia da região sai justamente dessas localidades. União Bandeirantes se consolidou como potência leiteira e agrícola. Jaci-Paraná continua sendo corredor econômico importante. Extrema e Vista Alegre possuem forte atividade pecuária e ligação comercial intensa com Acre e Amazonas.
Apesar disso, moradores afirmam que a sensação é de que existe “duas Porto Velho”: uma asfaltada, iluminada e priorizada; outra esquecida, distante e cheia de promessas antigas.
Nos últimos anos, os distritos enfrentaram reclamações constantes envolvendo:
- estradas vicinais praticamente intrafegáveis;
- falta de manutenção em pontes de madeira;
- postos de saúde sem profissionais suficientes;
- dificuldade de transporte escolar;
- escolas com problemas estruturais;
- baixa presença do poder público;
- demora em serviços básicos de infraestrutura.

A crítica mais recorrente entre lideranças comunitárias é que a prefeitura concentra grande parte das ações na capital enquanto os distritos sobrevivem quase por conta própria.
“Todo prefeito aparece aqui prometendo mudança. Passa eleição e continua tudo igual. O povo trabalha, produz, paga imposto e vive no barro”, afirma o caminhoneiro Antônio Ferreira, de Jaci-Paraná.
Dados oficiais mostram que Porto Velho possui mais de 500 mil habitantes estimados em 2025, sendo uma das capitais que mais cresceram territorialmente na Amazônia. Porém, grande parte desse crescimento não chegou acompanhado de infraestrutura adequada nos distritos.
O contraste revolta moradores porque muitos distritos ajudam diretamente na arrecadação municipal através da produção agropecuária e circulação econômica. Ainda assim, em várias comunidades o básico continua sendo tratado como favor político.
A população cobra mais presença da prefeitura fora do eixo urbano da capital. Para quem vive nos distritos, não basta aparecer com máquinas em períodos emergenciais ou fazer promessas em ano eleitoral. O que os moradores querem é dignidade permanente.
Porque enquanto Porto Velho cresce no discurso oficial, milhares de famílias seguem enfrentando poeira no verão, lama no inverno e a sensação amarga de terem sido esquecidas no mapa do próprio município.



Fotos e vídeos cedidas pelo portal O Bandeirante News


