Anvisa já vetou pelo menos sete marcas de emagrecedor paraguaio, mas produtos seguem sendo divulgados em vídeos para brasileiros
Farmácias paraguaias têm contratado influenciadores digitais brasileiros para divulgar a venda de remédios emagrecedores sem receita médica. A prática ocorre mesmo com pelo menos sete marcas desses produtos proibidas de entrar no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), inclusive para uso pessoal e mesmo com receita médica. Entre elas estão Lipoless, Tirzapep, Gluconex, Tirzedral, Slimex e Slimex MD.
Em vídeos publicados nas redes sociais, influenciadores aparecem dentro das farmácias paraguaias, mostrando os produtos disponíveis e orientando os seguidores sobre como comprar. A receita médica, no Paraguai, não é exigida para a venda. O documento só se torna obrigatório na travessia da fronteira, quando o produto passa pela fiscalização da Receita Federal brasileira. Mas a passagem só é liberada quando não há essa proibição da Anvisa. Algumas farmácias oferecem até atendimento médico no local, para quem chega sem receita: um profissional fica de plantão para fazer uma avaliação rápida e assinar o documento antes da compra seguir para o Brasil.
Entre os produtos mais divulgados está um combo apelidado de “pele, cabelo e unha”, apresentado nos vídeos como um emagrecedor que reduz gordura e preserva massa magra. É a retatrutida, que ainda não tem qualquer aprovação no Brasil. As farmácias também garantem a autenticidade dos produtos e oferecem um site de entrega para qualquer endereço no Brasil, sem exigência de receita, bula em português ou acompanhamento médico.
Um mercado que já soma bilhões
O comércio ilegal de emagrecedores vindos do Paraguai deixou de ser um problema pontual. Levantamento do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf) estima que esse contrabando deve movimentar mais de R$ 2 bilhões só em 2026, impulsionado por uma margem de lucro que chega a 415%, atrás apenas do cigarro entre os produtos contrabandeados.
Os números da fiscalização mostram a mesma curva. Somente na região de Foz do Iguaçu (PR), foram apreendidos 64 mil emagrecedores entre janeiro e maio deste ano, volume 700% superior a todo o ano de 2025. Em todo o país, o total de canetas e ampolas apreendidas em 2026 chegou a 115.647, um aumento de 1.446% em relação às 7.479 unidades apreendidas em 2025. Mesmo assim, a fiscalização consegue interceptar entre 5% e 10% do que tenta atravessar a fronteira.
Segundo o Idesf, o mercado deixou de ser pulverizado e passou a ser controlado por facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, que estruturaram rotas próprias de distribuição para esses produtos, com lucro que já rivaliza com o do tráfico de drogas.
Influenciador recusou proposta três vezes
Nem todo influenciador procurado aceita fazer esse tipo de divulgação. Um deles, que preferiu não se identificar e teve a voz alterada por inteligência artificial para preservar o anonimato, contou à reportagem da TMC que já recebeu esse tipo de proposta três vezes e recusou em todas. De acordo com ele, o pagamento seria feito com os próprios medicamentos.
“As propostas que eu recebi são voltadas pra divulgação de marcas, tanto com um estilo de vida saudável quanto o uso no dia a dia. Eu recusei porque não teria como justificar ter esse produto no Brasil, sendo um produto ilegal”, afirmou. Segundo ele, apenas uma marca do Paraguai é comercializada de forma legal no país vizinho; as demais oferecidas a ele estão irregulares no Brasil. “Por me preocupar com a saúde dos meus seguidores, eu resolvi recusar.”
Por que a Anvisa proibiu justamente essas marcas
A Anvisa normalmente permite a importação de remédios sem registro no Brasil para uso pessoal, desde que haja receita médica. No caso das marcas paraguaias, porém, a agência fechou essa exceção. O motivo é que boa parte dessas compras deixou de ter caráter pessoal.
A medida, no entanto, tem gerado disputa na Justiça. Decisões judiciais em diferentes estados têm concedido liminares que autorizam a importação para uso próprio, sob o argumento de que a restrição da Anvisa extrapolou os limites legais ao atingir pacientes que não têm finalidade comercial. A agência recorre dessas decisões sustentando que a proibição busca evitar produtos sem garantia de qualidade e maior risco de falsificação.
“Estão estimulando um crime”, diz advogada
Para a advogada Soliane Simon, a publicidade feita pelos influenciadores descumpre a legislação brasileira sobre propaganda de medicamentos. Segundo ela, a lei permite anúncio de remédio apenas em situações específicas: quando direcionado exclusivamente a médicos, ou quando a peça informa o número de registro na Anvisa e traz a recomendação de que, em caso de persistência dos sintomas, um médico deve ser consultado.
“Temos esses requisitos para uma propaganda de um medicamento que, obviamente, esses influencers não estão seguindo”, disse a advogada. Para ela, o problema não se limita à publicidade irregular. “Além disso, esses influencers estão estimulando um contrabando, então eles estão estimulando um crime.”
Riscos à saúde
A reportagem também ouviu a endocrinologista Lívia Ottoboni sobre os riscos de tomar medicamentos importados sem controle de qualidade e sem prescrição médica. Segundo ela, produtos vendidos como equivalentes a medicamentos originais precisam passar por testes específicos antes de chegar ao consumidor.
“Para garantir que uma medicação é equivalente à outra, são necessários testes específicos para assegurar as concentrações e as características idênticas”, explicou a médica. Ela alerta que análises fora desse padrão podem trazer riscos sérios: “Análises laboratoriais recentes apontam divergências graves em relação às concentrações, podendo aumentar o risco de efeito colateral grave e até intoxicação.”
O que dizem os órgãos procurados pela TMC
Procurada pela reportagem, a Anvisa informou que não poderia se manifestar especificamente sobre o caso porque o tema pode voltar à discussão da Diretoria Colegiada da agência.
O presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, demonstrou preocupação em relação ao tema. “É um verdadeiro crime, porque os produtos não são autorizados no Brasil”, afirmou.
“Tem pessoas que, às vezes, nem médicos são, são leigos que estão falando, mas por terem um grande engajamento, saem falando que ‘tal’ produto é bom”, reforçou Nelson Mussolini.
A Receita Federal preferiu não comentar o assunto. O Ministério Público Federal, a Polícia Federal e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também foram procurados, mas não responderam até a publicação desta reportagem.
Fonte: TMC


