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Leite em 2026: produção recorde derruba preços e desafia rentabilidade no campo

Mercado global de lácteos inicia o ano com oferta elevada, impulsionada por aumentos observados nos principais produtores mundiais. (Foto: Luiza Berg/Embrapa)

Após um 2025 de oferta histórica e deflação no campo, setor inicia o ano sob cautela

O mercado de lácteos brasileiro abre 2026 em um cenário de ajuste. Após um ano anterior marcado por uma produção recorde — com crescimento estimado em 7,2% — e uma balança comercial deficitária em cerca de 2 bilhões de litros equivalentes, o setor enfrenta as consequências de uma sobreoferta que achatou as margens dos produtores.

De acordo com o Centro de Inteligência do Leite (Cileite/Embrapa), o preço pago ao produtor despencou 22,6% no acumulado de 12 meses até dezembro de 2025, atingindo a marca de R$ 1,99 por litro. Na ponta final, o consumidor sentiu um alívio mais modesto: a cesta de lácteos (leite longa vida, queijos e derivados) recuou 3,62% no mesmo período.

Panorama global

O início de 2026 mantém a tendência de oferta elevada nos principais players mundiais, como Argentina e Uruguai, que registraram altas produtivas expressivas em 2025. Entretanto, o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Samuel Oliveira, alertou que o crescimento global deve ser mais contido este ano, reflexo de incertezas geopolíticas no Leste Europeu e Oriente Médio.

cenário macroeconômico brasileiro para 2026 exige atenção redobrada do setor produtivo, uma vez que a projeção de crescimento do PIB recuou para 1,8%, vindo de um desempenho de 2,3% no ano anterior. Somado à desaceleração econômica, o ambiente de ano eleitoral introduz uma volatilidade cambial que impacta diretamente a competitividade frente aos produtos importados. Além disso, a manutenção de taxas de juros elevadas para o controle da inflação encarece o crédito, impondo um obstáculo adicional aos produtores que dependem de financiamento para novos investimentos.

Produtividade vs. Consumo interno

desequilíbrio entre a produção (alta de 7,2%) e o consumo interno (expansão abaixo de 2%) expôs a fragilidade da cadeia produtiva. O Brasil produz mais do que consome internamente, mas ainda carece de competitividade para exportar o excedente de forma constante.

“Para sairmos desse ciclo de excesso de oferta e queda de preços, precisamos melhorar a competitividade, reduzir custos e começar a exportar”, afirmou Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa. Ele destaca que a produção brasileira é heterogênea, mas já apresenta polos de excelência mundial, como a região de Castro (PR), onde a produtividade se equipara ou supera a argentina.

Alento no custo de produção

Apesar da queda nos preços de venda, o Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite/Embrapa) subiu apenas 3,0%, ficando abaixo da inflação oficial de 4,3%. A estabilidade nos preços do milho e da soja garantiu que, para o produtor eficiente, as margens fossem apertadas, mas não negativas.

Além disso, a recuperação nos preços de bezerras e da arroba do boi tem gerado uma renda extra fundamental através do descarte de animais e venda de novilhos.

Fator Mercosul-UE

aprovação do acordo entre os blocos em janeiro de 2026 trouxe novas perspectivas. Embora a implementação integral possa demorar devido a trâmites jurídicos na Europa, o setor de lácteos observa o movimento com “otimismo estratégico”.

  • Proteção: Leite em pó e queijos possuem cotas modestas; muçarela está fora do acordo.
  • Impacto imediato: Redução tarifária de 30% para a manteiga e maior concorrência em queijos de alto valor agregado (gourmet).
  • Régua de qualidade: “A Europa funciona como uma certificação. Atender aos padrões deles nos credencia para abrir portas em outros mercados globais exigentes”, analisou Carvalho.
Recomendação para 2026: planejamento

Para Samuel Oliveira, o ano exige gestão rigorosa. “As transformações no setor são rápidas. É preciso buscar o aumento de produtividade e a agregação de valor, aproveitando o espaço que o Brasil ainda tem para evoluir em tecnologia”, concluiu.

Fonte: Itatiaia

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