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Peixe na mesa, desafio na produção: Quaresma aquece consumo, mas Rondônia enfrenta queda na oferta

Foto: Reprodução/PMPVH/Cedida

Redação A Gazeta de Rondônia

Procura cresce até 40% no período religioso, enquanto piscicultores lidam com custos elevados, clima instável e recuo na produção estadual

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Com a chegada da Quaresma, tradição que atravessa gerações e reforça hábitos alimentares em milhares de lares, o peixe volta a ganhar protagonismo nas mesas de Rondônia. Impulsionado por motivos religiosos e culturais, o consumo pode aumentar em até 40% neste período, movimentando feiras, mercados e pequenos produtores. No entanto, por trás desse aquecimento na demanda, o setor enfrenta um cenário de alerta: a produção estadual registrou queda de 2,67%.

Nas feiras livres de Porto Velho, Ji-Paraná e Ariquemes, o movimento já é perceptível. Bancas mais cheias, consumidores atentos aos preços e vendedores tentando equilibrar oferta e procura. Para muitas famílias, o pescado não é apenas uma escolha alimentar, mas um símbolo de fé e tradição.

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“É um costume que vem de casa. A gente cresce com isso, de evitar carne vermelha e dar preferência ao peixe”, conta a dona de casa Maria das Graças, enquanto escolhe tambaqui em uma feira da capital.

Mas se de um lado o consumo cresce, do outro a produção enfrenta dificuldades. Dados mais recentes apontam que Rondônia produziu cerca de 55,3 mil toneladas de peixe em 2025, mantendo-se como um dos principais polos do país, apesar da retração.

A base dessa produção continua concentrada nas espécies nativas, que representam praticamente toda a cadeia produtiva estadual (99,78%). O destaque absoluto segue sendo o tambaqui, carro-chefe da piscicultura local e responsável pela maior fatia do volume produzido.

Outras espécies também têm participação relevante, ainda que menor, como a jatuarana, o pintado e o pirarucu, que juntos compõem uma parcela complementar da produção historicamente, o tambaqui chega a representar cerca de 90% do total, com as demais espécies dividindo o restante.

Mesmo com essa estrutura consolidada, o setor perdeu fôlego. A queda de 2,67% no volume entre 2024 e 2025 reflete um cenário mais amplo, que não é exclusivo de Rondônia. Em nível nacional, a produção de peixes nativos também recuou pelo terceiro ano consecutivo, pressionada por gargalos logísticos, custos e limitações estruturais.

Para especialistas em economia do agronegócio, o momento exige atenção. O aumento da demanda sazonal, como ocorre na Quaresma, não tem sido suficiente para compensar os entraves da produção.

“O setor vive um descompasso,  consumo aquecido e oferta pressionada. Quando os custos sobem principalmente ração e energia o produtor reduz o ritmo, e isso aparece rapidamente nos números”, explica um economista ligado ao estudo da cadeia do pescado.

Outro ponto levantado por analistas é a dependência de poucos mercados consumidores e a falta de estrutura industrial para processamento, o que limita o crescimento sustentável da piscicultura. “Rondônia continua líder nacional em peixes nativos, mas precisa avançar na agregação de valor e na logística para não perder competitividade”, avalia.

Segundo produtores locais, o cenário é sentido no dia a dia. “A gente percebe que vende mais nessa época, mas também produz com mais dificuldade. O custo subiu muito, e isso acaba chegando no consumidor”, relata um criador do Vale do Jamari.

Para o consumidor, o reflexo aparece no bolso. Em alguns pontos, o preço do peixe já apresenta variações, obrigando famílias a pesquisarem mais antes de comprar ou até optarem por alternativas mais acessíveis.

Ainda assim, a tradição fala mais alto. Mesmo com preços mais elevados, muitos não abrem mão do pescado durante a Quaresma. “A gente dá um jeito. Compra menos, mas compra”, resume um aposentado em uma banca movimentada.

Entre fé, cultura e economia, a Quaresma deste ano revela um retrato sensível da realidade local, enquanto o consumo reafirma costumes e aquece o comércio, a produção pede atenção, investimento e políticas públicas mais consistentes.

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