Dados do Instituto Semesp mostram que professores com 60 anos ou mais mais que dobraram entre 2015 e 2023, enquanto os com até 24 anos caíram 31%
O ensino médio brasileiro está ficando sem professores jovens. Entre 2015 e 2023, o número de docentes com 60 anos ou mais cresceu 104,5%, mais que dobrou. No mesmo período, os professores com até 24 anos recuaram 31,1%. Os dados são do Instituto Semesp e foram divulgados nesta quarta-feira (16/09).
O total de docentes no ensino médio subiu apenas 6,6% no período. Ou seja: a categoria cresceu, mas ficou muito mais velha.
“Os dados mostram que o risco de apagão não depende mais apenas da quantidade de professores existentes hoje. O principal desafio está na capacidade de formar, atrair e incorporar novos profissionais em ritmo suficiente para substituir aqueles que deverão deixar a carreira nos próximos anos”, afirma a presidente do Semesp, Lúcia Teixeira.
O que é a Taxa de Renovação Docente
O Instituto Semesp desenvolveu um indicador chamado Taxa de Renovação Docente para quantificar esse desequilíbrio. O índice compara a proporção de docentes jovens, com até 24 anos, em relação àqueles na faixa de 60 anos ou mais. Valores mais baixos indicam maior dificuldade de reposição dos professores que se aposentam ou abandonam a carreira.
Entre 2015 e 2023, a queda foi generalizada: em Química, o índice recuou de 1,77 para 0,42; em Física, de 1,53 para 0,40; em Educação Física, o declínio foi de 1,59 para 0,40; e em Biologia, o indicador despencou de 1,45 para 0,37.
As disciplinas de Humanas também preocupam. Em 2023, Geografia registrou taxa de 0,216, cerca de 1 professor jovem para cada 5 mais velhos. História ficou em 0,234, Língua Portuguesa em 0,240, Sociologia em 0,263, Filosofia em 0,274 e Artes em 0,278.
“Esse movimento demonstra que o problema da renovação não está concentrado exclusivamente nas áreas que atualmente possuem menor número de professores. Trata-se de um fenômeno mais amplo, associado ao envelhecimento do quadro e à dificuldade de entrada de novas gerações na carreira docente”, afirmou o Instituto Semesp.
Salário abaixo da média e carga pesada
A remuneração oferecida ajuda a explicar o afastamento dos jovens da carreira docente. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) mostram que, em 2025, a remuneração média mensal de um docente atuando no ensino médio é de R$ 6,5 mil, cifra que fica 20% abaixo da média de R$ 8,1 mil registrada entre trabalhadores com diploma de ensino superior.
O cenário é ainda mais adverso em certas áreas do conhecimento. Conforme a RAIS, o salário médio mensal de quem leciona Sociologia no ensino médio chega a apenas R$ 4.695.
Além do salário, a carga de trabalho pesa. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que 41,4% dos professores de ensino médio atuam com 50 a 400 alunos em dois turnos.
Para comparar: na Coreia do Sul, a remuneração anual de um professor começa em US$ 37,8 mil e pode chegar a US$ 104,8 mil após anos de carreira. Na Austrália, o piso é de US$ 57,5 mil anuais, com teto de US$ 93 mil.
A projeção do Instituto Semesp para 2040 é preocupante. A Taxa de Renovação Docente média poderá cair para 0,17. Nesse cenário, haveria cerca de 61,9 mil docentes com 60 anos ou mais e apenas cerca de 10,7 mil com até 24 anos.
*estagiário sob supervisão de Alexandre de Aquino
TMC


