Dirigentes tucanos discutem pré-candidatura de Aécio Neves à Presidência após crise envolvendo Flávio Bolsonaro e Banco Master
O PSDB passou a discutir internamente a possibilidade de lançar o deputado federal Aécio Neves (MG) como candidato à Presidência da República nas eleições de 2026, diante do desgaste político enfrentado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A movimentação ganhou força após a revelação de conversas entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, nas quais o senador teria solicitado recursos para a produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
As informações foram publicadas originalmente pela Folha de S.Paulo e apontam que o tema foi debatido nesta terça-feira (19) em uma reunião envolvendo Aécio Neves, dirigentes do PSDB e lideranças de partidos aliados, como o Solidariedade e o Cidadania. A estratégia em discussão seria lançar a pré-candidatura do tucano para medir sua capacidade de crescimento nas pesquisas até as convenções partidárias de julho.
Segundo integrantes da articulação, o ex-presidente do Cidadania Roberto Freire pretende solicitar uma reunião da federação PSDB-Cidadania já na próxima semana para defender oficialmente o nome de Aécio.
“Não podemos nos omitir neste quadro que está aqui”, afirmou Freire à Folha. “Há tempos venho conversando isso. Não podemos deixar o lulopetismo continuar governando o nosso país, e nem voltar à mediocridade plena que é o bolsonarismo.”
PSDB busca alternativa no campo da centro-direita
Antes da possibilidade de Aécio ganhar força, o PSDB avaliava outros nomes para a disputa presidencial. Uma das alternativas consideradas era o ex-ministro Ciro Gomes, atualmente filiado ao PSDB. No entanto, Ciro optou por disputar o Governo do Ceará, estado em que aparece bem posicionado nas pesquisas eleitorais.
Outro nome cogitado foi o do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Porém, a mudança de Leite do PSDB para o PSD e sua permanência no governo gaúcho acabaram afastando a possibilidade de candidatura presidencial.
O presidente do Solidariedade, deputado federal Paulinho da Força, confirmou que a hipótese de lançar Aécio foi discutida durante a reunião e declarou apoio ao projeto político. Segundo ele, existe espaço eleitoral para um candidato de centro-direita fora da polarização entre PT e bolsonarismo.
“Conversamos um pouco sobre isso, ele [Aécio] está a fim. Tem um movimento muito grande no partido dele. Eu fiz um apelo para ele lançar a candidatura. Acho que, com esse derretimento do Flávio, vai sobrar um povo que não quer votar no PT e que não tem alternativa”, declarou Paulinho.
Estratégia mira eleitores de centro
De acordo com aliados, a estratégia discutida pela cúpula tucana é apresentar Aécio Neves como uma alternativa capaz de fazer críticas tanto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto a Flávio Bolsonaro, buscando atrair o eleitorado de centro que rejeita os dois polos políticos.
Aécio Neves foi procurado pela reportagem da Folha de S.Paulo, mas preferiu não comentar o assunto. Até recentemente, o partido avaliava a possibilidade de ele disputar uma vaga ao Senado por Minas Gerais ou buscar a reeleição para a Câmara dos Deputados.
Apesar de ainda não haver pesquisas internas consolidadas sobre o potencial eleitoral da candidatura, aliados apostam na experiência política do tucano, que governou Minas Gerais por dois mandatos e foi candidato à Presidência em 2014.
Naquele pleito, Aécio disputou o segundo turno contra Dilma Rousseff (PT) e terminou a eleição com 48,36% dos votos, contra 51,64% da então presidente, que acabou reeleita.
Lava Jato ainda pesa sobre imagem do tucano
Após a eleição de 2014, Aécio Neves passou a ser alvo de investigações da Operação Lava Jato, episódio que marcou o enfraquecimento político do PSDB nos anos seguintes. Lideranças tucanas avaliam agora que uma eventual candidatura presidencial poderia servir também para tentar recuperar publicamente a imagem do deputado.
Integrantes do partido afirmam que a campanha permitiria reforçar decisões judiciais que inocentaram o parlamentar em processos relacionados à Lava Jato. Nos bastidores, dirigentes defendem que o caso de Aécio seja contraposto às denúncias recentes envolvendo integrantes do governo Lula e também Flávio Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro admitiu ter recebido R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele sustenta que a operação foi um investimento privado regular, sem uso de recursos públicos ou qualquer contrapartida irregular.
Uma das acusações mais emblemáticas contra Aécio surgiu após a divulgação de uma gravação envolvendo o empresário Joesley Batista, do grupo J&F. Na conversa, o tucano solicitava R$ 2 milhões para custear sua defesa na Lava Jato. O valor acabou sendo entregue a um primo do parlamentar em uma ação monitorada pela Polícia Federal.
Justiça rejeitou denúncia contra Aécio
A gravação foi incorporada ao acordo de delação premiada de Joesley Batista e encaminhada à Procuradoria-Geral da República. O conteúdo teve ampla repercussão política na época e aprofundou a crise enfrentada pelo PSDB.
Posteriormente, no entanto, a denúncia foi rejeitada pelo juiz Ali Mazloum, da 7ª Vara Criminal de São Paulo. O magistrado concluiu que não havia provas que relacionassem o pedido de empréstimo a atos de corrupção.
Na decisão, o juiz afirmou que não ficou comprovado um histórico de propina entre Aécio Neves e Joesley Batista. Segundo Mazloum, existiam apenas “negócios lícitos, como a doação de campanha eleitoral no valor de R$ 110 milhões, compra de apartamento de R$ 18 milhões e pedido de empréstimo de R$ 5 milhões”.
Na ocasião, Aécio divulgou uma nota em que afirmou que “a farsa foi desmascarada” e que “foi demonstrada a fraude montada por membros da PGR e por delatores que colocou em xeque o Estado democrático de Direito no país”.
Brasil 247


