A demora no atendimento lidera os motivos apontados pelas vítimas ouvidas pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP)
Uma pesquisa inédita realizada pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) aponta que 72,6% dos enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem do estado foram vítimas de algum tipo de violência no trabalho nos últimos 12 meses.
O estudo, feito entre os dias 20 e 24 de julho deste ano com 4.402 participantes, mostra que cerca de sete em cada dez profissionais vivenciaram esses episódios durante o exercício de suas funções, destacando a alta incidência de ataques verbais e psicológicos na rotina da categoria.
Dentre as vítimas de agressão, 89,2% citaram violência verbal e 73,8% relataram abusos psicológicos. Esses conflitos geram forte impacto na saúde mental, aceleram o adoecimento dos trabalhadores e prejudicam diretamente a qualidade do atendimento oferecido à população.
Os pacientes lideram a lista como principais agressores (68,1%), seguidos por familiares (59,6%) e acompanhantes (50,7%). Entre os fatores desencadeantes mais recorrentes destacam-se a demora nos serviços (63,9%), problemas na infraestrutura das unidades sanitárias (55,1%) e a insatisfação geral com a assistência médica (45,8%), gargalos sistêmicos que fogem do controle da equipe de ponta, mas rebatem em quem realiza o atendimento direto.
A maior parte dos incidentes (71,6%) concentrou-se na rede pública de saúde. O índice expressa o expressivo volume de demandas absorvido pelo SUS e a concentração das solicitações populacionais, não significando culpa exclusiva do sistema público pelas ocorrências.
Em paralelo, a falta de registros oficiais prejudica o combate ao problema: somente 30,1% dos afetados registraram denúncia. Os motivos que levariam a maioria a se calar incluem o sentimento de impunidade (59,5%), a ausência de suporte por parte da gestão (54,5%) e o medo de demissão (42,7%).
O cenário de resolução também se mostra desanimador para quem busca ajuda formal. Entre os que formalizaram a queixa, 65,2% disseram que a ação não produziu nenhum efeito prático e apenas 5,7% confirmaram a punição efetiva do autor das agressões, o que amplia a sensação de desproteção e desestimula novas notificações.
Diante do quadro, o presidente do Coren-SP, Sérgio Cleto, ressalta a urgência de fortalecer medidas de proteção, amparo e punição. “Ainda são milhares de profissionais vítimas de violência no exercício da profissão. Esse resultado reforça a necessidade de um trabalho permanente do Coren-SP, com campanhas de conscientização, audiências públicas, acolhimento às vítimas e incentivo para que os profissionais denunciem as agressões”, afirma Cleto.
“A violência contra a enfermagem tem impacto direto também na população, que muitas vezes deixa de ser assistida quando o profissional precisa ser afastado para se recuperar. O Coren-SP seguirá em diálogo permanente com o poder público, fortalecendo campanhas de prevenção, acolhendo os profissionais e incentivando a denúncia para que os agressores sejam responsabilizados. Podemos até chegar em casa cansados, mas não vamos mais aceitar chegar agredidos”, acrescenta.
Para a entidade, conter a escalada da violência exige a atuação integrada de gestores, hospitais, forças de segurança e da comunidade em geral.


