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AO PONTO: Do Púlpito ao Palanque

DO PÚLPITO AO PALANQUE: Durante muito tempo, a frase “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” parecia delimitar claramente as fronteiras entre religião e política. Mas, nos últimos anos, especialmente no Brasil, a linha que separa o púlpito do palanque ficou cada vez mais tênue. Em muitos casos, praticamente desapareceu. Hoje, não é raro ver pastores disputando eleições, participando de campanhas, ocupando cargos públicos e influenciando diretamente decisões políticas. A pergunta que surge é inevitável: o que está levando tantos líderes evangélicos a trocar o sermão pelo discurso eleitoral? A resposta não é simples. O crescimento das igrejas evangélicas nas últimas décadas transformou esse segmento em uma das maiores forças sociais do país. Onde existe um grande grupo organizado, existe também interesse político. E onde existe interesse político, aparecem candidatos dispostos a representar esse eleitorado. Não por acaso, surgiu e se fortaleceu a chamada bancada evangélica no Congresso Nacional. Em tese, trata-se de um grupo de parlamentares que busca defender pautas ligadas à fé cristã, à liberdade religiosa e aos valores considerados conservadores. Nada de errado nisso. Em uma democracia, todos os segmentos da sociedade têm o direito de buscar representação política. O problema começa quando a teoria encontra a prática. Porque uma coisa é defender princípios cristãos. Outra, bem diferente, é usar o evangelho como plataforma eleitoral permanente. O eleitor observa. E observa muito. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a líderes religiosos envolvidos em investigações, escândalos, disputas de poder, ataques pessoais e comportamentos que pouco lembram as mensagens pregadas aos domingos. Não estamos falando de todos, evidentemente. Generalizações costumam ser injustas e preguiçosas. Existem pastores e políticos evangélicos que exercem seus mandatos com seriedade, ética e coerência, honrando tanto a função pública quanto a fé que professam. Mas também é verdade que alguns parecem ter descoberto que os corredores do poder podem ser mais atraentes que os corredores da igreja. O resultado é um fenômeno curioso. Enquanto muitos fiéis procuram orientação espiritual, alguns líderes parecem mais preocupados com pesquisas eleitorais do que com passagens bíblicas. Em certos momentos, o comício lembra um culto e o culto lembra um comício. Fica difícil saber se a mensagem é sobre salvação ou sobre a próxima eleição. Em Rondônia, assim como em diversas regiões do país, esse movimento é visível. Pastores disputam prefeituras, câmaras municipais, assembleias legislativas e cargos federais. Alguns chegam à política com propostas legítimas e vontade de contribuir para a sociedade. Outros parecem enxergar no capital eleitoral das igrejas um caminho mais curto para alcançar poder e influência. A questão central não é se um pastor pode ou não entrar na política. Pode. Assim como professores, médicos, agricultores, empresários ou qualquer outro cidadão. O verdadeiro debate deveria ser outro: quando chega ao poder, ele continua representando os valores que dizia defender? Porque o eleitor cristão não procura perfeição. Procura coerência. A política brasileira tem uma fama antiga de engolir boas intenções. Muitos entram prometendo mudanças e acabam sendo mudados pelo sistema. A velha máxima continua circulando nos bastidores: na política, ou você entra para o jogo, ou o jogo trata de expulsá-lo. Talvez por isso a sociedade esteja cada vez mais desconfiada. Não da fé. Não das igrejas. Mas daqueles que usam a fé como atalho para conquistar votos. No fim das contas, o desafio não é levar o evangelho para a política. O desafio é não deixar que a política engula o evangelho. E essa, convenhamos, parece ser uma tentação muito maior do que muitos imaginavam. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA

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