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Categoria: Ao ponto
A TESOURA DE MARCOS ROGÉRIO: O governador eleito Marcos Rogério terá pela frente uma missão que não aceita maquiagem nem discurso bonito: arrumar a casa, cortar gastos e enfrentar os problemas que se acumularam no governo de Marcos Rocha. A primeira prova de fogo deverá ser a revisão da máquina pública, com atenção especial aos cargos comissionados, enquanto a saúde exige medidas urgentes, dinheiro bem aplicado e resultados que apareçam na vida de quem depende do SUS. Em Rondônia, o cidadão já cansou de ouvir promessa enquanto enfrenta filas, demora por atendimento e dificuldades para conseguir assistência médica. A paciência da população não é infinita, e o novo governo precisará entender isso desde o primeiro dia. A tesoura nos comissionados, porém, promete provocar arrepios nos corredores do poder. Para alguns, será um alívio; para outros, uma notícia capaz de tirar o sono. Afinal, cargo político tem dessas coisas: quando o governo muda, muita gente começa a conferir se a cadeira continua firme. Mas é justamente aí que mora a dúvida que a população precisa ver respondida: Marcos Rogério vai promover um verdadeiro enxugamento da máquina pública ou apenas trocar os indicados de Marcos Rocha pelos seus próprios aliados? Porque, se a ideia for somente mudar os ocupantes das cadeiras, sem reduzir despesas nem melhorar os serviços, teremos apenas uma reforma de fachada — muda-se o crachá, mas a conta continua chegando ao contribuinte. O Estado precisa de um choque de gestão, com revisão de contratos, controle de despesas, avaliação de resultados e prioridades bem definidas. E a saúde deve estar no topo dessa lista. Não basta anunciar economia se o dinheiro poupado não chegar à ponta, onde estão os pacientes que aguardam consultas, exames, cirurgias e atendimento digno. Cortar por cortar não resolve; é preciso separar o que é gasto desnecessário do que é serviço essencial. A população não quer apenas um governo que economize, quer um governo que saiba onde investir e que tenha coragem de enfrentar problemas antigos sem empurrá-los para o próximo mandato. Marcos Rocha deixa um legado político que será avaliado pela população e pelos órgãos de controle, mas a gestão que se inicia não poderá usar o governo anterior como desculpa permanente. Problemas na saúde, na educação e na segurança pública exigem respostas concretas. Se a situação está tão difícil quanto apontam as críticas e as reclamações da população, o novo governador terá de mostrar serviço rapidamente. A herança recebida pode explicar parte dos desafios, mas não servirá de justificativa para quatro anos de omissão. Marcos Rogério contará com uma base de apoio expressiva na Assembleia Legislativa, o que poderá facilitar a aprovação de reformas e medidas administrativas. Esse apoio, entretanto, será uma oportunidade e também uma responsabilidade. Ter deputados aliados ajuda a governar, mas não garante uma boa gestão. A Assembleia precisará fiscalizar, cobrar resultados e defender os interesses da população, em vez de funcionar apenas como carimbadora das decisões do Executivo. Se houver compromisso com Rondônia, a parceria poderá produzir avanços; se prevalecer a velha política do toma lá, dá cá, o Estado continuará pagando a conta. No fim, a grande pergunta não é quantos comissionados Marcos Rogério vai exonerar, mas o que fará depois da canetada. Vai reduzir despesas de verdade, melhorar a saúde, fortalecer a educação e dar respostas à segurança pública? Ou a tesoura será usada apenas para abrir espaço aos aliados que esperam sua vez na fila dos cargos? O eleitor não escolheu um novo governador para assistir a uma simples troca de placas nas portas dos gabinetes. Escolheu alguém que terá de mostrar resultados. Marcos Rogério tem a oportunidade de provar que economia pública não é sinônimo de perseguição política e que governar não significa distribuir cargos entre amigos. Se fizer o dever de casa, poderá iniciar uma mudança importante. Se decepcionar, descobrirá que a mesma caneta usada para nomear e exonerar também não apaga a cobrança das urnas. E, em política, quando a expectativa é alta e a entrega é baixa, nem a melhor base na Assembleia consegue segurar a conta por muito tempo. POR PAULO DE TARSO CABRAL - JORNALISTA
APOIO NÃO SE IMPÔE: A vereadora Sofia Andrade defende Flávio Bolsonaro, mas a escolha presidencial de Léo Moraes pertence ao prefeito. Na democracia, apoio se conquista, não se exige. Na política brasileira, parece que defender um candidato já não é suficiente. Em certos grupos, é preciso também convencer todo mundo a vestir a mesma camisa, repetir o mesmo discurso e publicar a mesma declaração de apoio. Quem não acompanha o coro corre o risco de ser tratado como suspeito de infidelidade ideológica. Em Porto Velho, a discussão sobre o posicionamento do prefeito Léo Moraes em relação à candidatura de Flávio Bolsonaro, do PL, à Presidência da República traz uma questão elementar: desde quando o apoio político de alguém precisa ser autorizado ou exigido por outra pessoa? A deputada federal eleita Sofia Andrade, identificada com o bolsonarismo, tem todo o direito de defender Flávio Bolsonaro, trabalhar por sua candidatura e tentar conquistar novos apoiadores. Isso faz parte da democracia. O que merece reflexão é a eventual pressão para que o prefeito também declare publicamente sua preferência. Uma coisa é defender convicções. Outra é querer transformar essas convicções em obrigação para os outros. A democracia garante o direito de convencer, mas não concede a ninguém o poder de escolher pelo próximo. Prefeito não é cabo eleitoral obrigatório Léo Moraes tem uma prefeitura para administrar e uma capital inteira com demandas que não esperam o desfecho de uma eleição presidencial. Porto Velho precisa de infraestrutura, saúde, educação, mobilidade urbana e serviços públicos que funcionem. É esse trabalho que deve ocupar boa parte da agenda de um prefeito. O chefe do Executivo municipal apoiou Marcos Rogério na disputa pelo governo de Rondônia e também acompanhou a eleição do irmão, Paulo Moraes, para a Assembleia Legislativa. Agora, passada a disputa estadual, o desafio é continuar trabalhando pela capital e buscar condições para que o município avance. Não tenho procuração para falar em nome de Léo Moraes, muito menos para afirmar quais são suas intenções eleitorais. Mas é perfeitamente legítimo questionar por que um prefeito deveria ser pressionado a antecipar uma declaração de apoio presidencial quando pode considerar mais conveniente aguardar o desenvolvimento do cenário político. Não declarar apoio neste momento não significa, necessariamente, estar em cima do muro. Pode ser uma decisão política, uma opção estratégica ou simplesmente a preferência por não transformar uma escolha pessoal em assunto público antes da hora. E convenhamos, administrar Porto Velho já é tarefa suficiente. Transformar o prefeito em cabo eleitoral obrigatório de alguém seria acrescentar mais uma função à lista — e, aparentemente, sem direito a escolher o próprio candidato. Brasília não tem dono Independentemente de quem conquistar a Presidência, Porto Velho precisará manter relações institucionais com o governo federal. A cidade necessita de investimentos, convênios, obras e recursos para atender à população. Essas demandas não deveriam depender da fotografia do prefeito ao lado de determinado candidato durante a campanha. Se Flávio Bolsonaro vencer, caberá ao governo federal dialogar com os municípios e atender às necessidades da população dentro das regras públicas. Se outro candidato vencer, a responsabilidade será a mesma. O compromisso institucional precisa estar acima das preferências partidárias. Afinal, o dinheiro destinado à saúde, à infraestrutura e à educação não é propriedade de um partido nem presente pessoal de um presidente. São recursos públicos, cuja aplicação deve obedecer aos critérios legais e ao interesse coletivo. Por isso, o prefeito precisa ter liberdade para construir relações políticas e administrativas sem ser obrigado a demonstrar fidelidade antecipada a um projeto presidencial específico. O fanatismo cobra declaração O problema aparece quando a militância deixa de defender ideias e passa a cobrar obediência. Nesse ambiente, quem não repete o discurso inteiro vira suspeito; quem não publica a foto esperada parece traidor; e quem prefere aguardar os acontecimentos é acusado de falta de posicionamento. É uma contradição curiosa: em nome da liberdade, tenta-se limitar a liberdade alheia. Em nome da democracia, cobra-se uma espécie de juramento político. E, em nome da lealdade, alguns parecem querer decidir até o que os outros devem pensar. Se cada político tiver de declarar apoio a todos os candidatos exigidos por seus aliados, a campanha eleitoral vai acabar parecendo reunião de condomínio: quem não levantar a mão na hora certa corre o risco de ser acusado de estar contra o prédio inteiro. O problema não é ser de direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente política. O problema é o fanatismo que transforma divergências em ofensas e opiniões diferentes em motivo para rompimento. Sofia Andrade pode defender Flávio Bolsonaro com toda a intensidade que considerar necessária. Pode argumentar, mobilizar apoiadores e apresentar suas razões. O mesmo direito, porém, precisa ser reconhecido a Léo Moraes, inclusive se ele decidir não declarar apoio público neste momento. A liberdade política não funciona por conveniência, ou vale para todos, ou vira apenas discurso de ocasião. O voto não vem com coleira Léo Moraes não precisa anunciar apoio presidencial para provar que tem posição política. Se decidir apoiar Flávio Bolsonaro, Lula ou outro candidato, será uma escolha que poderá assumir publicamente e justificar perante seus eleitores. Se preferir não antecipar essa decisão, também deverá ter essa possibilidade, sem que o silêncio seja automaticamente interpretado como falta de coragem ou lealdade. Isso não significa que o prefeito esteja acima das críticas. Todo agente público deve responder por suas decisões, explicar suas alianças quando necessário e prestar contas à população. Mas cobrar transparência sobre a gestão é muito diferente de exigir uma declaração de voto conforme a preferência de terceiros. Porto Velho tem problemas concretos para resolver e uma população que espera resultados. A cidade ganha quando o prefeito busca recursos, mantém diálogo com os governos estadual e federal e trabalha para melhorar os serviços públicos. Uma disputa antecipada para medir quem declarou apoio primeiro não coloca asfalto nas ruas, não reduz filas na saúde e não melhora a vida dos moradores. Apoio político se conquista, não se arranca no grito. E fica a pergunta, se a democracia garante ao cidadão o direito de escolher seu candidato livremente, por que um prefeito deveria abrir mão dessa mesma liberdade para satisfazer a expectativa de quem quer ouvir uma declaração pública? Política, defender um candidato é legítimo. Exigir que todos pensem igual é outra história. E, se a fidelidade partidária virou uma obrigação de declarar apoio sob pressão, talvez alguns estejam confundindo democracia com torcida organizada. POR PAULO CABRAL - JORNALISTA
A CRISE DAS PROPOSTAS E A GUERRA DAS ACUSAÇÕES: O debate da Band entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tinha tudo para ser um espaço de confronto de ideias, apresentação de propostas e esclarecimento sobre os rumos que cada candidato pretende dar ao Brasil. Afinal, disputar a Presidência da República exige mais do que frases de efeito, dedo em riste e acusações de lado a lado. Exige conteúdo, equilíbrio e, principalmente, respeito ao eleitor. Mas, pelo que se viu, o Brasil assistiu a um espetáculo em que as propostas ficaram nos bastidores e as acusações ocuparam o palco principal. Se a intenção era convencer o eleitor, faltou combinar isso com os protagonistas. Lula, em alguns momentos, procurou apresentar realizações de seu governo e defender o que pretende fazer em um eventual novo mandato. Demonstrou familiaridade com os assuntos nacionais e tentou sustentar a postura de quem conhece a máquina pública. Isso não significa que esteja acima das críticas — muito pelo contrário. Quem ocupa a Presidência precisa responder por seus erros, explicar suas escolhas e apresentar soluções para os problemas que continuam afetando a população. Já Flávio Bolsonaro, na avaliação desta coluna, desperdiçou uma oportunidade importante. Em vez de dedicar mais tempo à apresentação de seu plano de governo, preferiu apostar no confronto direto, com acusações e provocações que, quando não acompanhadas de provas e explicações consistentes, pouco contribuem para o debate democrático. A Presidência não é palco para comportamento de moleque. Gestos provocativos, interrupções e demonstrações de arrogância podem até render cortes para as redes sociais, aplausos da própria torcida e manchetes instantâneas. Mas governar um país com milhões de problemas exige muito mais do que saber atacar o adversário diante das câmeras. Em determinados momentos, a postura de Flávio passou a impressão de que o objetivo era vencer o embate pessoal, e não demonstrar preparo para assumir o comando do país. A cena chegou a lembrar um candidato mais preocupado em seguir o roteiro do confronto do que em apresentar, com autonomia e clareza, o que faria caso chegasse ao Palácio do Planalto. E aqui cabe uma pergunta incômoda: se o candidato pretende governar o Brasil, por que não aproveitar o tempo de televisão para explicar como pretende fazê-lo? Cadê as propostas para a saúde, a segurança pública, a educação, o emprego, a inflação e o custo de vida? O eleitor não paga suas contas com acusações, nem enche o carrinho do supermercado com provocações eleitorais. Lula, por sua vez, procurou preservar uma postura mais próxima à de um chefe de Estado, embora também tenha perdido a paciência em alguns momentos. E convenhamos: ninguém tem sangue de barata. Ainda assim, a experiência de quem já ocupa a Presidência deveria servir para transformar provocações em oportunidades de demonstrar equilíbrio, responder com argumentos e colocar os problemas nacionais acima das disputas pessoais. O episódio deixa uma lição para os dois lados: debate presidencial não é campeonato de quem grita mais alto, acusa mais vezes ou faz a expressão mais debochada. É uma oportunidade de mostrar ao eleitor quem tem as melhores ideias, o preparo necessário e a capacidade de tomar decisões em momentos difíceis. O Brasil não precisa de um presidente que transforme cada discordância em briga de recreio. Precisa de alguém capaz de ouvir, negociar, decidir e assumir responsabilidades. O debate da Band deixou uma sensação amarga: havia tempo para discutir o futuro do país, mas boa parte dele foi consumida pelo passado, pelas acusações e pela tentativa de desqualificar o adversário. Faltou apresentar o Brasil que cada um quer construir. Sobrou a disputa para ver quem conseguia desqualificar mais o outro. POR PAULO DE TARSO - JORNALISTA
FAKE NEWS; O JOGO SUJO QUE AMEAÇA A DEMOCRACIA: Uma eleição deveria ser uma disputa de ideias, propostas e compromissos com a população. Mas, quando a mentira entra em campo como arma política, o debate dá lugar à manipulação, e o eleitor corre o risco de se tornar refém de informações fabricadas para enganar, provocar ódio e destruir reputações. As fake news representam uma das faces mais preocupantes da política atual. Em vez de convencer pela força dos argumentos, há quem tente conquistar apoio distorcendo fatos, inventando histórias e espalhando acusações sem provas. É a tentativa de substituir a verdade pela conveniência eleitoral. Isso não é estratégia política. É jogo sujo. E pouco importa se a mentira favorece a direita, a esquerda ou qualquer candidato. Quem utiliza a desinformação para manipular a opinião pública desrespeita o eleitor e enfraquece as regras básicas da convivência democrática. O mais preocupante é que, nas redes sociais, uma mentira pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos, enquanto a correção muitas vezes chega tarde — quando chega. O estrago pode estar feito: reputações destruídas, famílias expostas, adversários injustamente atacados e cidadãos tomando decisões com base em informações falsas. A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não deve servir de escudo para fraudes, falsificações e campanhas deliberadas de desinformação. Criticar um candidato é legítimo. Cobrar explicações é necessário. Apontar contradições faz parte da democracia. Fabricar fatos para enganar a população é outra coisa. Nas eleições de 2026, o Brasil precisa decidir que tipo de disputa aceita tolerar. Não se trata de impedir opiniões divergentes, mas de impedir que a mentira seja tratada como ferramenta normal de campanha. A responsabilidade é de candidatos, partidos, apoiadores, plataformas e também de cada cidadão que compartilha conteúdo sem verificar sua origem. Uma democracia não se fortalece com mentiras, e uma eleição não se torna legítima porque a desinformação favoreceu o lado vencedor. O voto pertence ao cidadão, não aos fabricantes de notícias falsas. Quem espalha fake news pode até conseguir vantagem momentânea, mas deixa um prejuízo muito maior: a perda de confiança nas instituições, na imprensa e na própria verdade. E, quando a sociedade já não consegue distinguir fatos de invenções, a democracia fica mais vulnerável à manipulação. Na política, vale disputar votos. O que não pode valer é enganar o povo para consegui-los. POR PAULO DE TARSO - JORNALISTA
QUANDO O VOTO VIRA TORCIDA E O ADVERSÁRIO, INIMIGO: O Brasil acaba de sair de mais uma eleição — mas, olhando para o comportamento de boa parte do eleitorado, fica a sensação de que muita gente foi às urnas não para escolher um projeto de país, mas para derrotar o outro lado. A eleição de 2026 escancarou novamente uma divisão que há anos vem contaminando o debate público: esquerda contra direita, direita contra esquerda. E, no meio dessa guerra política, muitas vezes ficaram em segundo plano aquilo que deveria estar no centro de qualquer democracia: propostas, competência, histórico, prioridades e capacidade de governar. Em vez de perguntar “o que este candidato pretende fazer?”, parte do eleitorado passou a perguntar apenas “ele é de direita ou de esquerda?”. A política virou torcida. E torcida, quando perde a capacidade de ouvir, transforma adversário em inimigo. O problema é que essa radicalização não fica apenas nas redes sociais. Ela chega às famílias, rompe amizades, provoca discussões e cria um ambiente em que discordar passou a ser quase uma ofensa pessoal. Democracia, entretanto, não exige que todos pensem igual. Exige que saibamos conviver com quem pensa diferente. Rondônia também deu seu recado Em Rondônia, o resultado das urnas mostrou uma forte preferência do eleitorado por candidaturas identificadas com a direita. Marcos Rogério foi eleito governador no primeiro turno com 56,86% dos votos válidos, enquanto os dois eleitos para o Senado também pertencem ao PL. Justiça Eleitoral Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente no estado, com 67,45% dos votos válidos. UOL Notícias Mas há outro número que merece atenção: 274.695 eleitores rondonienses não compareceram às urnas, uma abstenção de 21,71%. Houve ainda 23.607 votos brancos e 21.648 nulos. Justiça Eleitoral No Brasil, o cenário também chama atenção. A abstenção chegou a 21,08%, com mais de 33 milhões de eleitores ausentes, enquanto brancos e nulos somaram 4,77% na disputa presidencial. Folha de S.Paulo E aqui é preciso fazer uma correção importante: não é correto dizer que Rondônia registrou aumento de brancos e nulos em relação a 2022. Os três indicadores — abstenção, brancos e nulos — melhoraram no estado na comparação com a eleição anterior. Diário da Amazônia Ainda assim, a quantidade de brasileiros que não participaram diretamente da escolha é um sinal que não pode ser ignorado. Talvez parte dessa ausência seja desinteresse. Talvez seja descrença. Talvez seja cansaço de uma política que parece permanentemente em guerra. E talvez exista também quem simplesmente não se identifique com a polarização. O eleitor precisa voltar a ser eleitor O maior risco para a democracia não é alguém ser de direita ou de esquerda. O problema começa quando a ideologia impede a pessoa de enxergar erros no próprio lado e acertos no lado contrário. Precisamos recuperar uma coisa simples: a liberdade de escolher sem transformar o adversário em inimigo. Eleição não deveria ser campeonato. Não deveria existir “meu político pode tudo” e “o outro não presta para nada”. Governante não é ídolo. Candidato não é santo. Partido não é religião. O Brasil precisa de eleitores capazes de cobrar todos: direita, esquerda, centro, situação e oposição. Porque, depois que termina a apuração, a conta não é dividida entre direita e esquerda. A conta chega para todos. E talvez essa seja a principal lição das urnas de 2026: o Brasil não precisa apenas escolher quem vai governar. Precisa reaprender como escolher. Por Paulo de Tarso - Jornalista
O MISTÉRIO DOS 1.200 ENTREVISTADOS; ALGUÉM EM RONÔNIA JÁ ATENDEU A ESSA LIGAÇÃO? Dizem os manuais da estatística que basta ouvir uma amostra bem calculada de mil e poucas pessoas para traduzir com precisão cirúrgica a alma, a cabeça e a intenção de voto dos mais de 1,2 milhão de eleitores rondonienses. Uma matemática perfeita. Linda no papel, irretocável na teoria e devidamente chancelada com número de protocolo no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) ou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Há apenas um pequeníssimo detalhe nessa engrenagem impecável: você, seus parentes, seus vizinhos e todas as pessoas com quem você já conversou na vida nunca receberam a bendita ligação. É um fenômeno quase místico. O cidadão acorda em Porto Velho, toma o seu café, vai trabalhar em Ji-Paraná, passa o fim de semana em Cacoal, cruza Vilhena, troca ideia até no grupo da família no WhatsApp e nada. Ninguém jamais ouviu o toque do celular acompanhado de uma voz metálica perguntando: "Em quem você votaria para o governo?". Ainda assim, o milagre da estatística acontece. Periodicamente, o sistema da Justiça Eleitoral registra os levantamentos oficiais. As planilhas aparecem recheadas com margem de erro de três pontos percentuais, nível de confiança de 95% e gráficos coloridos que estampam portais de notícias no dia seguinte. Não se trata, veja bem, de duvidar dos métodos amparados por algoritmos e amostragem probabilística. Os institutos cumprem as exigências legais e depositam os dados nas instâncias competentes. Mas para quem vive o cotidiano rondoniense, a sensação é de que esses 1.200 entrevistados fazem parte de um seleto clube secreto. Uma espécie de "Sociedade dos Eleitores Invisíveis" que habita uma dimensão paralela, onde os telefones tocam no momento exato e ninguém desliga na cara da robô de telemarketing. Enquanto a maioria dos mortais passa o ano inteiro fugindo de ligações de cobrança, de golpes do Pix ou de ofertas de plano de internet, essa seleta amostragem consegue ser localizada para responder pesquisas de intenção de voto com a calma de um monge. Até que o dia da votação chegue e as urnas mostrem o resultado definitivo, o mistério permanece flutuando no ar quente de Rondônia: afinal, quem são, onde vivem e o que comem os privilegiados eleitores que alimentam as estatísticas? Se você for um deles, por favor, avise no grupo — a população inteira só quer tirar essa dúvida.
PEDÁGIO VIRA ESTRELA PRINCIPAL DOS PALANQUES: O pedágio da BR-364 virou, de repente, um dos assuntos preferidos dos palanques de Rondônia. Candidatos que buscam o primeiro mandato e políticos que tentam voltar ou permanecer no poder aparecem agora questionando o valor cobrado e prometendo enfrentar a tarifa. Questionar o preço é legítimo. Cobrar transparência, fiscalização e cumprimento do contrato também. O problema está em transformar uma questão complexa, regulada por contrato de concessão, em promessa eleitoral de solução fácil. O processo da Rota Agro Norte não começou ontem. O leilão da BR-364/RO ocorreu em fevereiro de 2025, o contrato foi assinado em julho e a concessão teve início em agosto. A cobrança do pedágio começou em janeiro de 2026. É justamente aí que cabe a pergunta incômoda: onde estavam esses discursos durante as etapas anteriores do processo? Não se trata de afirmar que determinado parlamentar foi omisso sem analisar sua atuação individual, mas de lembrar que debate público, audiência, fiscalização e pressão política existem antes — e não somente depois que a cobrança chega ao bolso do cidadão. Agora, com o pedágio funcionando, fica muito fácil vestir a capa de defensor do motorista. Todo mundo quer ser o pai da criança depois que ela nasceu. Antes, porém, era preciso discutir o modelo, as tarifas, as obrigações da concessionária e os mecanismos de revisão previstos no contrato. E há uma diferença importante: dizer ao eleitor que vai “acabar com o pedágio” ou simplesmente “baixar a tarifa” não é a mesma coisa que apresentar uma proposta juridicamente viável. A concessão possui regras contratuais e regulatórias, e eventuais mudanças precisam seguir os instrumentos previstos nesse modelo e as competências das autoridades responsáveis. Rondônia precisa de menos promessa de palanque e mais explicação. Se existe caminho legal para revisar tarifa, que se mostre qual é. Se há problema no contrato, que se aponte qual cláusula. Se há falha na prestação do serviço, que se cobre a ANTT e a concessionária. Porque discurso político pode ser feito em cinco minutos. Desfazer ou alterar uma concessão, definitivamente, não. E, convenhamos, transformar o pedágio no assunto da vez depois que a conta chegou é uma coisa. Ter participado do debate quando as decisões ainda estavam sendo tomadas é outra bem diferente. POR PAULO DE TARSO - JORNALISTA
A LEI NÃO ESCOLHE CEP: Existe um princípio que deveria estar acima de partidos, amizades, interesses e conveniências políticas: a lei deve valer para todos. A Constituição Federal estabelece a igualdade perante a lei e garante direitos como o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Na prática, porém, nem sempre a percepção da sociedade acompanha o que está escrito. Denúncias envolvendo autoridades, empresários ou figuras conhecidas rapidamente chegam às redes sociais e às rodas de conversa. E surge uma curiosidade do nosso tempo: a investigação costuma ser muito mais lenta que o julgamento na internet. Uma denúncia não é condenação. Uma investigação não significa culpa. Mas ocupar um cargo público também não transforma ninguém em cidadão acima das regras. O problema aparece quando a régua muda conforme o personagem. Se uma conduta é questionável quando praticada pelo adversário, também deveria ser quando envolve um aliado. Caso contrário, não é princípio: é conveniência. E existe uma ironia tipicamente brasileira: a estrada pode até ter buracos, mas a lei não deveria ter faixa exclusiva. Mandatos passam, cargos mudam e alianças acabam. O que permanece é a necessidade de instituições capazes de aplicar as mesmas regras, independentemente de sobrenome, patrimônio, influência ou posição social. No fim, fica uma pergunta: A lei é realmente igual para todos ou alguns ainda acreditam que podem trafegar por uma faixa exclusiva? Porque Justiça não deveria escolher partido, bolso, sobrenome ou CEP. - Por Paulo de Tarso - Jornalista 
A CONTA DA ELEIÇÃO: Quase R$ 5 bilhões para financiar campanhas eleitorais. O número, por si só, já deveria provocar uma boa conversa no país. Não porque democracia não tenha custo, mas porque dinheiro público tem dono: o cidadão. O Fundo Eleitoral possui finalidade prevista em lei e busca garantir recursos para que partidos e candidatos possam disputar eleições. Isso é legítimo. O que não pode deixar de ser discutido é o tamanho dessa conta e se o sistema encontrou o equilíbrio entre financiar a democracia e evitar excessos. Em Rondônia, onde a população ainda convive com problemas na saúde, educação, segurança e infraestrutura, ver campanhas movimentando milhões naturalmente causa desconforto. E há o desperdício. Santinhos, cartazes, adesivos, bandeiras e toda a parafernália eleitoral têm sua função, mas boa parte termina no lixo depois da votação. É dinheiro público que poderia ser utilizado com muito mais parcimônia. Também não parece razoável que algumas candidaturas tenham acesso a estruturas milionárias enquanto outras praticamente fazem campanha na sola do sapato. Se a eleição deve ser democrática, a diferença financeira não deveria transformar a disputa em corrida de quem tem o bolso mais fundo. Nesse ponto, merece reconhecimento o trabalho da Justiça Eleitoral, que vem apertando a fiscalização e tornando mais rigorosa a análise das prestações de contas. É fundamental que continue assim. Afinal, se existem regras, elas precisam valer para todos. E, embora não se possa generalizar, sempre haverá quem tente encontrar brechas para driblar a fiscalização. Por isso, quanto mais rigor na conferência das contas, melhor para o eleitor e para os candidatos que cumprem corretamente a legislação. Também cabe uma reflexão: o cidadão que presta concurso público banca sua inscrição, transporte, alimentação e preparação. Quem pretende ocupar um cargo público, por que não poderia assumir uma parcela maior dos custos de sua própria campanha? Talvez esteja na hora de discutir limites mais enxutos e uma distribuição mais equilibrada dos recursos. Não se trata de acabar com o financiamento eleitoral. Trata-se de perguntar se quase R$ 5 bilhões são realmente necessários para fazer democracia. Porque o eleitor pode até esquecer o número do candidato. O que ele não deveria esquecer é quem paga a conta. E essa conta, como sempre, chega para o povo.  POR PAULO DE TARSO - JORNALISTA/EDITOR
VORCARO CAIU. E AGORA TODO MUNDO É SANTO? O caso Daniel Vorcaro e do Banco Master expõe uma questão que ultrapassa as suspeitas investigadas: o alcance da rede de relações construída pelo banqueiro ao longo de sua trajetória. Seu nome aparece associado a contatos com políticos, empresários, autoridades e diferentes setores da sociedade, enquanto as investigações procuram esclarecer a natureza e a dimensão desses vínculos. As apurações e informações divulgadas sobre o caso também colocaram no radar relações com instituições, entidades, círculos jurídicos, governos e até segmentos religiosos. Isso não significa, por si só, irregularidade. Mas torna inevitável uma pergunta: como se formou uma rede de relacionamento tão ampla em torno de um empresário do sistema financeiro? O fenômeno merece ser observado com seriedade. Relações entre poder econômico e poder político fazem parte da dinâmica de qualquer democracia. O limite está na transparência. Quando contatos, negócios, favores ou interesses passam a levantar dúvidas sobre influência indevida ou conflito de interesses, cabe às instituições investigar e à sociedade cobrar respostas. É justamente nesse ponto que a queda de Vorcaro chama atenção. Enquanto seu banco crescia e seu trânsito institucional aumentava, a proximidade com diferentes setores parecia fazer parte da rotina. Com o avanço das investigações, esses mesmos relacionamentos passaram a ser examinados com outra perspectiva. A pergunta, portanto, não é apenas por que Vorcaro caiu. É também como ele conseguiu estabelecer tantas conexões, quem abriu essas portas, quais interesses aproximaram os envolvidos e até onde essa rede efetivamente alcançava. O caso Master precisa ser tratado sem torcida, sem condenações antecipadas e sem a conveniente amnésia que costuma aparecer quando o poder muda de mãos. Se as investigações comprovarem irregularidades, será preciso responsabilizar quem tiver de ser responsabilizado. Mas, se a rede de relações se mostrar tão extensa quanto vem sendo revelada, também será necessário perguntar por que tantas portas estavam abertas. Porque o problema não é um empresário conversar com o poder. O problema começa quando ninguém consegue explicar por que o poder estava tão disposto a ouvi-lo. POR PAULO DE TARSO - JORNALISTA/EDITOR