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Categoria: Ao ponto
BANHO DE ÁGUA FRIA: A decisão do Partido Progressista (PP) de adotar uma posição de neutralidade na disputa presidencial de 2026 caiu como um balde de água fria nos planos do PL. Até poucos dias atrás, o cenário apontava para uma aliança praticamente consolidada entre as duas siglas, inclusive com a expectativa de que a senadora Tereza Cristina (PP-MS) integrasse a chapa presidencial como candidata a vice de Flávio Bolsonaro. A mudança de rota, no entanto, embaralhou o tabuleiro político. Oficialmente, o PP preferiu manter distância da corrida ao Palácio do Planalto. Nos bastidores, porém, a decisão alimenta interpretações e especulações. Uma delas é que os acontecimentos mais recentes envolvendo o PL podem ter pesado na cautela adotada pelos dirigentes progressistas. Não há confirmação dessa relação, mas, em política, coincidências costumam ser analisadas com lupa. O recuo do PP representa uma perda estratégica para o projeto eleitoral do PL. Além do tempo reduzido para reorganizar a articulação nacional, Flávio Bolsonaro agora precisará acelerar a busca por um nome competitivo para compor a chapa e manter o equilíbrio político desejado. Na política, alianças que pareciam certas podem desaparecer da noite para o dia. Quem ontem navegava em mar calmo, hoje vê o parceiro desembarcar no primeiro porto seguro. O PP preferiu ficar no cais. Já o PL terá de voltar ao mar e encontrar, às pressas, um novo vice para seguir viagem. Artigo de opinião. As análises e interpretações apresentadas neste texto refletem a avaliação editorial do autor com base no cenário político atual e não constituem afirmações de fatos ainda não confirmados.
BANDEIRA NÃO TAPA BURACO: Há uma pergunta que o eleitor deveria fazer a todo político, de que lado você está? Da direita? Da esquerda? Ou do lado do povo? Infelizmente, nos últimos anos, o debate político parece ter perdido o rumo. Enquanto a população espera hospitais funcionando, escolas melhores, estradas recuperadas, segurança e emprego, boa parte da classe política continua ocupada em uma guerra interminável de bandeiras. Tem gente que acorda pensando em direita, almoça falando de esquerda e vai dormir brigando nas redes sociais. Governar, que é bom, às vezes fica para depois. Em Rondônia, como em boa parte do país, não faltam discursos inflamados em defesa desta ou daquela corrente ideológica. O problema é que, muitas vezes, sobra paixão partidária e falta compromisso com quem realmente paga a conta: o cidadão. É saudável que existam pensamentos diferentes. A democracia vive do debate. O que não faz sentido é transformar a política em uma torcida organizada, onde o adversário vira inimigo e qualquer diálogo passa a ser tratado como traição. Sob a ótica da administração pública, um gestor que deixa de buscar ou de aproveitar recursos públicos exclusivamente por divergências político-partidárias comete um grave equívoco. Emendas parlamentares, convênios e programas governamentais existem para beneficiar a população. O dinheiro público não é da direita. Não é da esquerda. O dinheiro é do povo. Se uma emenda parlamentar chega para construir uma ponte, ampliar um hospital, comprar ambulâncias ou levar asfalto a um bairro, pouco importa se ela foi destinada por um deputado de direita, de esquerda ou de centro. O que realmente importa é que aquele recurso chegue a quem mais precisa. Da mesma forma, fechar as portas para investimentos do Governo Federal ou de qualquer outro ente público apenas por divergências ideológicas não parece fazer sentido do ponto de vista do interesse coletivo. Quem acaba pagando essa conta não é o político. É a população. É a dona Maria que continua esperando uma cirurgia. É o seu João que ainda enfrenta a estrada cheia de buracos. É o agricultor que precisa escoar a produção. É o comerciante que aguarda melhorias na infraestrutura para vender mais. Quando o fanatismo político entra pela porta da administração, muitas vezes o interesse público acaba saindo pela janela. Nos últimos anos, a política brasileira passou a valorizar mais os rótulos do que os resultados. Há campanhas que parecem investir mais tempo em demonstrar fidelidade a líderes nacionais do que em apresentar soluções concretas para os problemas da cidade ou do Estado. O eleitor merece muito mais do que marketing ideológico. Merece competência. Planejamento. Resultado. A boa política não deveria ter dificuldade em dialogar com quem pensa diferente quando o assunto é melhorar a vida da população. Obras não têm ideologia. Remédios não votam. Escolas não perguntam em quem você votou. Asfalto não escolhe partido. No fim da eleição, o palanque é desmontado. Os jingles deixam de tocar. As bandeiras são guardadas. Mas os problemas continuam exatamente no mesmo lugar. O buraco permanece na rua. A fila continua no hospital. O ônibus segue lotado. A escola ainda precisa de melhorias. E a dona Maria, o seu João, o agricultor, o comerciante e o trabalhador continuam esperando aquilo que realmente importa, Resultado. Talvez esteja na hora de parte da classe política entender uma verdade simples. O eleitor não mora na direita. O eleitor não mora na esquerda. O eleitor mora no bairro. E é lá que ele espera encontrar uma rua asfaltada, um posto de saúde funcionando, uma escola de qualidade e governantes que trabalhem menos para a plateia e mais para quem os elegeu. Por Paulo de Tarso - Jornalista
TEATRO DAS CONVENÇÕES: A partir desta segunda-feira (20), partidos entram em cena para cumprir o rito exigido pela Justiça Eleitoral, oficializando candidaturas que, na prática, já estão definidas nos bastidores. A temporada das convenções partidárias começa nesta segunda-feira (20) em Rondônia e no restante do país. No calendário eleitoral, trata-se de uma das etapas mais importantes da corrida de 2026. Na prática política, porém, dificilmente haverá surpresas. É durante as convenções que os partidos homologam oficialmente os nomes que disputarão o Governo do Estado, o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa. O detalhe é que, salvo raríssimas exceções, esses nomes já foram definidos muito antes da abertura das convenções. As decisões costumam nascer em reuniões reservadas, negociações entre lideranças e acordos políticos construídos ao longo dos últimos meses. Isso não significa que as convenções sejam mera formalidade. Pelo contrário. Elas são uma exigência da legislação eleitoral e representam o ato oficial que autoriza os partidos a registrarem seus candidatos junto à Justiça Eleitoral. Sem essa etapa, não existe candidatura válida, por mais conhecido ou forte que seja o pré-candidato. Também é nesse momento que são confirmadas as coligações permitidas, homologados os candidatos a vice e ao Senado, além da definição dos números que cada concorrente levará para a urna eletrônica. Em Rondônia, as convenções prometem movimentar os bastidores mais pelos discursos do que pelas escolhas. O foco estará na demonstração de força política, na presença de aliados, nas fotografias de unidade e nas mensagens destinadas ao eleitor. Afinal, a campanha ainda não começou oficialmente, mas todos sabem que a disputa já está em pleno andamento. A partir desta semana, o palco muda. Os bastidores dão lugar aos palanques, os acordos passam a ser públicos e os pré-candidatos deixam de ser apenas uma aposta dos partidos para se tornarem, oficialmente, candidatos. O rito é obrigatório, mas a corrida pelo voto começou muito antes de a primeira convenção abrir suas portas. Por Paulo de Tarso - Jornalista
PESQUISAS NÃO ELEGEM: A temporada das pesquisas eleitorais começou em Rondônia. E, junto com ela, reapareceu um velho fenômeno da política: a guerra dos números. Em poucos dias, o eleitor já viu levantamentos colocando Marcos Rogério na liderança. Logo depois, outra pesquisa apontou Adaílton Fúria à frente. Em seguida, surgiu mais um levantamento indicando Hildon Chaves em posição de destaque. Afinal, quem está certo? A resposta é simples: nenhuma pesquisa representa o resultado da eleição. Pesquisa é um retrato de um momento específico, feito com determinada metodologia, em determinado período. Ela mede tendências, não entrega o resultado das urnas. É justamente por isso que o eleitor precisa redobrar a atenção. Antes de compartilhar qualquer levantamento nas redes sociais ou tomar uma decisão baseada em percentuais, vale fazer algumas perguntas básicas: a pesquisa está devidamente registrada na Justiça Eleitoral? Quem contratou o levantamento? Qual é o instituto responsável? A metodologia foi divulgada? Quantas pessoas foram entrevistadas? Em quais municípios? Essas informações fazem toda a diferença. Ao longo de eleições passadas, surgiram institutos pouco conhecidos, alguns criados praticamente às vésperas da campanha, divulgando números que provocaram debates, desconfiança e muita polêmica. Isso não significa que todas as pesquisas sejam ruins ou manipuladas. Seria uma injustiça afirmar isso. Existem institutos sérios, técnicos e respeitados, que trabalham com rigor estatístico, transparência e responsabilidade. Esses merecem credibilidade e cumprem um papel importante para compreender o humor do eleitorado. O problema está na proliferação de levantamentos cuja origem, metodologia ou histórico despertam dúvidas e acabam servindo muito mais como instrumento de propaganda política do que de informação. O maior risco é o eleitor trocar a análise dos candidatos pela simples observação dos números. Votar porque "fulano está ganhando" ou abandonar um candidato porque apareceu atrás em uma pesquisa é abrir mão da própria convicção. Democracia não se constrói por efeito manada. As pesquisas podem informar, mas jamais devem substituir o julgamento do cidadão. O voto precisa ser decidido pela história de cada candidato, pela sua capacidade administrativa, pelas propostas apresentadas, pelo plano de governo, pela coerência entre discurso e prática e pelo compromisso demonstrado com Rondônia. Em uma eleição, quem decide não é o instituto de pesquisa, nem a corrente das redes sociais. Quem decide é o eleitor, sozinho diante da urna. Até outubro de 2026, muitos levantamentos ainda serão divulgados. Alguns confirmarão tendências. Outros se mostrarão completamente diferentes entre si. Por isso, o melhor conselho continua sendo o mais simples, olhe para as pesquisas com interesse, mas também com senso crítico. Confira se elas cumprem as exigências legais, conheça quem as realizou e, acima de tudo, não entregue seu voto a um gráfico. Antes de acreditar em qualquer pesquisa eleitoral, vale lembrar que toda pesquisa destinada à divulgação durante o período eleitoral deve observar as regras da Justiça Eleitoral e pode ser consultada no sistema oficial de registro. O eleitor também pode verificar informações diretamente nos portais do TSE e do TRE de Rondônia. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA 
O TAMBAQUI VIAJANTE: Enquanto Rondônia tenta resolver seus problemas do dia a dia, o governador Marcos Rocha embarcou para mais uma longa agenda internacional. Desta vez, o destino é a China. A pergunta que muita gente faz é simples: depois de tantas viagens ao exterior, o que, de fato, ficou para Rondônia? As missões internacionais sempre são apresentadas como estratégicas, repletas de reuniões, protocolos e promessas de investimentos. Na prática, porém, o grande protagonista continua sendo o tambaqui. O peixe de Rondônia já deve conhecer mais aeroportos internacionais do que muitos rondonienses. Se depender da divulgação, logo estará falando mandarim. Viajar faz parte da atividade de qualquer chefe de governo. Buscar mercados, atrair investidores e fortalecer relações comerciais é legítimo. O problema começa quando o custo dessas viagens bancadas com dinheiro público parece produzir muito mais fotografias, discursos e solenidades do que resultados concretos para quem vive aqui. E a viagem ocorre justamente quando o governo entra na reta final do mandato. Se o próprio governador afirma que pretende trabalhar até o último dia da gestão, talvez o maior desafio esteja bem mais perto do que Pequim. Basta percorrer os corredores dos hospitais, ouvir pacientes à espera de atendimento, conversar com quem enfrenta dificuldades na saúde pública ou visitar obras que ainda aguardam conclusão. Rondônia não precisa apenas de vitrine internacional. Precisa de entregas. Precisa de respostas. Precisa de prioridades. Tomara que a bagagem de volta venha carregada de investimentos reais, empregos e soluções. Porque de lembranças de viagens, fotos oficiais e apresentações do nosso famoso tambaqui, o álbum institucional já parece estar completo. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
SPRAY DE PIMENTA; PROTEÇÃO OU NOVO RISCO? A decisão de Porto Velho autorizar o uso de spray de pimenta por mulheres coloca em pauta uma discussão que exige equilíbrio entre segurança e responsabilidade. A proposta tem um objetivo legítimo: oferecer às mulheres mais um instrumento de defesa diante da crescente violência. E isso é inquestionável. Afinal, quem agride uma mulher deveria enfrentar punições muito mais rigorosas do que as previstas atualmente. Mas toda boa ideia precisa ser acompanhada de mecanismos eficazes de controle. O spray de pimenta é um equipamento de defesa, não um brinquedo. Nas mãos de mulheres conscientes, pode evitar uma agressão e até salvar vidas. Já nas mãos de pessoas irresponsáveis ou criminosos, pode se transformar em mais um instrumento para facilitar assaltos, agressões e outros delitos. É justamente aí que mora a preocupação. A legislação estabelece regras para aquisição e uso, mas a realidade costuma ser bem diferente. Sem fiscalização rigorosa e controle eficiente da comercialização, o produto pode chegar facilmente às mãos de quem jamais deveria tê-lo. E vale lembrar: criminosos também têm familiares, companheiras e pessoas próximas que podem adquirir o equipamento. Defender a proteção das mulheres não significa ignorar os riscos que uma medida como essa pode trazer. O desafio do poder público é encontrar o ponto de equilíbrio entre garantir o direito à legítima defesa e impedir que uma ferramenta criada para proteger cidadãos de bem acabe fortalecendo a ação da criminalidade. Boa intenção, por si só, nunca foi sinônimo de segurança. O sucesso da medida dependerá da responsabilidade de quem usa e, principalmente, da eficiência de quem fiscaliza. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
DISCURSO EM MODO REPETIÇÃO: Quem acompanha a movimentação dos pré-candidatos ao Governo de Rondônia já deve ter percebido uma cena que vem se repetindo. Troca-se o município, muda o palco, aparecem rostos diferentes na plateia, mas o discurso continua praticamente o mesmo. É uma sequência de falas sobre o passado, de lembranças dos mandatos, de obras, emendas e cargos ocupados. Tudo isso faz parte da trajetória de quem pretende governar o Estado, mas não responde à pergunta que o eleitor realmente quer fazer: e daqui para frente? A população quer ouvir propostas. Quer saber como cada pré-candidato pretende melhorar a saúde, enfrentar a violência, fortalecer a produção rural, gerar empregos e preparar Rondônia para os próximos anos. Afinal, pedir o voto para governar um Estado é muito mais do que apresentar um currículo ou contar o que já fez. Até agora, falta aquele debate que desperta interesse, que gera esperança e faz as pessoas pararem para ouvir. Em muitos casos, o discurso parece decorado, repetido tantas vezes que já perdeu a capacidade de surpreender. Falta emoção, falta conteúdo e, principalmente, falta apresentar um caminho claro para o futuro. É verdade que a campanha oficial ainda nem começou. Talvez seja cedo para cobrar um plano de governo completo. Mas quem deseja chegar ao Palácio Rio Madeira precisa entender que o eleitor de hoje está mais atento, mais exigente e menos disposto a acreditar apenas em frases de efeito. Rondônia não precisa de candidatos que vivam olhando pelo retrovisor. Precisa de lideranças capazes de mostrar, com clareza e coragem, para onde pretendem levar o Estado. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
POSSE OU ENTREVISTA ÍNTIMA?: Tem coisas que a administração pública insiste em tratar como “procedimento padrão”, mas que, na prática, parecem mais roteiro de reality show ruim do que etapa de posse em cargo público. Em Rondônia, candidatas aprovadas no concurso da Educação relatam terem sido surpreendidas com um formulário que ultrapassa o aceitável — e não é pouco. Perguntar o que é necessário para o exercício do cargo é uma coisa. Outra bem diferente é querer saber da vida íntima das servidoras como se o Estado tivesse virado consultório ginecológico com crachá funcional. Ciclo menstrual, vida sexual, estado gestacional… falta só pedir a cor favorita da calcinha para completar o pacote de “transparência administrativa”. E aqui vale uma separação importante, porque sempre aparece a tentação de jogar tudo no colo do governador. Não é por aí. O problema está na engrenagem técnica da Seduc/RO, que conduz processos via estruturas terceirizadas e, ao que tudo indica, deixou passar um formulário que mais parece ter sido montado por alguém confundindo RH com interrogatório invasivo. Gestão pública não pode ser terceirizada da responsabilidade. A pergunta que fica é simples, direta e até meio constrangedora de ter que fazer: a quem interessa saber se uma professora menstrua, tem vida sexual ativa ou está grávida? Isso melhora aula? Resolve índice educacional? Organiza escola? Ou só alimenta uma burocracia que acha que intimidade virou dado funcional? A legislação, aliás, não costuma ser tímida nesse ponto. Ninguém é obrigado a responder questionário que invade esfera íntima sem relação com o cargo. E quando o Estado precisa recorrer a esse tipo de exigência, talvez o problema não esteja nas candidatas, mas na criatividade excessiva de quem elabora formulários. O mais irônico é que tudo isso acontece justamente na área da Educação, onde se espera o mínimo de sensibilidade, preparo e noção institucional. Mas, aparentemente, o formulário resolveu dar aula de invasão de privacidade. No fim, sobra a imagem de servidoras sendo avaliadas não pela capacidade profissional, mas por detalhes que não dizem absolutamente nada sobre desempenho. E isso, convenhamos, não é gestão pública, é desvio de foco com papel timbrado. Fica aqui o espaço aberto para que a Seduc/RO, caso queira, apresente sua manifestação e esclarecimentos sobre o caso. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
A CASA DAS LEIS E DAS CONFUSÕES SEMANAIS: A Câmara Municipal de Porto Velho vive dias que já ultrapassaram o limite do aceitável para uma Casa Legislativa. O que deveria ser um espaço de debate, construção de leis e representação da população tem sido marcado, com frequência, por episódios de tensão, atritos e desgaste institucional. Nos últimos dias, o presidente da Casa, Gedeão Negreiros, enfrenta o desafio de conduzir um ambiente politicamente instável, onde a rotina de sessões tem sido antecedida por expectativas de novos conflitos. O que se vê no plenário são recorrentes embates entre vereadores, episódios de confronto com jornalistas e ativistas, além de discussões que muitas vezes extrapolam o campo político e avançam para o confronto pessoal. Em alguns momentos, as sessões deixam de ter foco na pauta legislativa e passam a ser dominadas por disputas de narrativa e comportamento. É importante registrar que há parlamentares que mantêm atuação regular e buscam cumprir seu papel institucional com responsabilidade. No entanto, esses acabam dividindo espaço com um cenário de constante tensão, o que impacta diretamente a percepção pública sobre o Legislativo municipal. Somam-se a esse contexto as recorrentes notícias de pedidos e processos de cassação, o que amplia a sensação de instabilidade dentro da Casa. Na prática, o resultado é uma Câmara que tem sido mais associada a conflitos internos do que à produção legislativa. O desafio colocado é de reorganização do ambiente institucional e de retomada do foco no trabalho parlamentar, dentro dos limites regimentais e do papel que a população espera do Legislativo municipal. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
DO PÚLPITO AO PALANQUE: Durante muito tempo, a frase “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” parecia delimitar claramente as fronteiras entre religião e política. Mas, nos últimos anos, especialmente no Brasil, a linha que separa o púlpito do palanque ficou cada vez mais tênue. Em muitos casos, praticamente desapareceu. Hoje, não é raro ver pastores disputando eleições, participando de campanhas, ocupando cargos públicos e influenciando diretamente decisões políticas. A pergunta que surge é inevitável: o que está levando tantos líderes evangélicos a trocar o sermão pelo discurso eleitoral? A resposta não é simples. O crescimento das igrejas evangélicas nas últimas décadas transformou esse segmento em uma das maiores forças sociais do país. Onde existe um grande grupo organizado, existe também interesse político. E onde existe interesse político, aparecem candidatos dispostos a representar esse eleitorado. Não por acaso, surgiu e se fortaleceu a chamada bancada evangélica no Congresso Nacional. Em tese, trata-se de um grupo de parlamentares que busca defender pautas ligadas à fé cristã, à liberdade religiosa e aos valores considerados conservadores. Nada de errado nisso. Em uma democracia, todos os segmentos da sociedade têm o direito de buscar representação política. O problema começa quando a teoria encontra a prática. Porque uma coisa é defender princípios cristãos. Outra, bem diferente, é usar o evangelho como plataforma eleitoral permanente. O eleitor observa. E observa muito. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a líderes religiosos envolvidos em investigações, escândalos, disputas de poder, ataques pessoais e comportamentos que pouco lembram as mensagens pregadas aos domingos. Não estamos falando de todos, evidentemente. Generalizações costumam ser injustas e preguiçosas. Existem pastores e políticos evangélicos que exercem seus mandatos com seriedade, ética e coerência, honrando tanto a função pública quanto a fé que professam. Mas também é verdade que alguns parecem ter descoberto que os corredores do poder podem ser mais atraentes que os corredores da igreja. O resultado é um fenômeno curioso. Enquanto muitos fiéis procuram orientação espiritual, alguns líderes parecem mais preocupados com pesquisas eleitorais do que com passagens bíblicas. Em certos momentos, o comício lembra um culto e o culto lembra um comício. Fica difícil saber se a mensagem é sobre salvação ou sobre a próxima eleição. Em Rondônia, assim como em diversas regiões do país, esse movimento é visível. Pastores disputam prefeituras, câmaras municipais, assembleias legislativas e cargos federais. Alguns chegam à política com propostas legítimas e vontade de contribuir para a sociedade. Outros parecem enxergar no capital eleitoral das igrejas um caminho mais curto para alcançar poder e influência. A questão central não é se um pastor pode ou não entrar na política. Pode. Assim como professores, médicos, agricultores, empresários ou qualquer outro cidadão. O verdadeiro debate deveria ser outro: quando chega ao poder, ele continua representando os valores que dizia defender? Porque o eleitor cristão não procura perfeição. Procura coerência. A política brasileira tem uma fama antiga de engolir boas intenções. Muitos entram prometendo mudanças e acabam sendo mudados pelo sistema. A velha máxima continua circulando nos bastidores: na política, ou você entra para o jogo, ou o jogo trata de expulsá-lo. Talvez por isso a sociedade esteja cada vez mais desconfiada. Não da fé. Não das igrejas. Mas daqueles que usam a fé como atalho para conquistar votos. No fim das contas, o desafio não é levar o evangelho para a política. O desafio é não deixar que a política engula o evangelho. E essa, convenhamos, parece ser uma tentação muito maior do que muitos imaginavam. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA