QUANDO O VOTO VIRA TORCIDA E O ADVERSÁRIO, INIMIGO: O Brasil acaba de sair de mais uma eleição — mas, olhando para o comportamento de boa parte do eleitorado, fica a sensação de que muita gente foi às urnas não para escolher um projeto de país, mas para derrotar o outro lado.
A eleição de 2026 escancarou novamente uma divisão que há anos vem contaminando o debate público: esquerda contra direita, direita contra esquerda. E, no meio dessa guerra política, muitas vezes ficaram em segundo plano aquilo que deveria estar no centro de qualquer democracia: propostas, competência, histórico, prioridades e capacidade de governar.
Em vez de perguntar “o que este candidato pretende fazer?”, parte do eleitorado passou a perguntar apenas “ele é de direita ou de esquerda?”. A política virou torcida. E torcida, quando perde a capacidade de ouvir, transforma adversário em inimigo.
O problema é que essa radicalização não fica apenas nas redes sociais. Ela chega às famílias, rompe amizades, provoca discussões e cria um ambiente em que discordar passou a ser quase uma ofensa pessoal. Democracia, entretanto, não exige que todos pensem igual. Exige que saibamos conviver com quem pensa diferente.
Rondônia também deu seu recado
Em Rondônia, o resultado das urnas mostrou uma forte preferência do eleitorado por candidaturas identificadas com a direita. Marcos Rogério foi eleito governador no primeiro turno com 56,86% dos votos válidos, enquanto os dois eleitos para o Senado também pertencem ao PL. Justiça Eleitoral
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente no estado, com 67,45% dos votos válidos. UOL Notícias
Mas há outro número que merece atenção: 274.695 eleitores rondonienses não compareceram às urnas, uma abstenção de 21,71%. Houve ainda 23.607 votos brancos e 21.648 nulos. Justiça Eleitoral
No Brasil, o cenário também chama atenção. A abstenção chegou a 21,08%, com mais de 33 milhões de eleitores ausentes, enquanto brancos e nulos somaram 4,77% na disputa presidencial. Folha de S.Paulo
E aqui é preciso fazer uma correção importante: não é correto dizer que Rondônia registrou aumento de brancos e nulos em relação a 2022. Os três indicadores — abstenção, brancos e nulos — melhoraram no estado na comparação com a eleição anterior. Diário da Amazônia
Ainda assim, a quantidade de brasileiros que não participaram diretamente da escolha é um sinal que não pode ser ignorado.
Talvez parte dessa ausência seja desinteresse. Talvez seja descrença. Talvez seja cansaço de uma política que parece permanentemente em guerra. E talvez exista também quem simplesmente não se identifique com a polarização.
O eleitor precisa voltar a ser eleitor
O maior risco para a democracia não é alguém ser de direita ou de esquerda. O problema começa quando a ideologia impede a pessoa de enxergar erros no próprio lado e acertos no lado contrário.
Precisamos recuperar uma coisa simples: a liberdade de escolher sem transformar o adversário em inimigo.
Eleição não deveria ser campeonato. Não deveria existir “meu político pode tudo” e “o outro não presta para nada”. Governante não é ídolo. Candidato não é santo. Partido não é religião.
O Brasil precisa de eleitores capazes de cobrar todos: direita, esquerda, centro, situação e oposição.
Porque, depois que termina a apuração, a conta não é dividida entre direita e esquerda. A conta chega para todos.
E talvez essa seja a principal lição das urnas de 2026: o Brasil não precisa apenas escolher quem vai governar. Precisa reaprender como escolher. Por Paulo de Tarso - Jornalista