A informação que constrói sociedade

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Categoria: Ao ponto
PESQUISAS NÃO ELEGEM: A temporada das pesquisas eleitorais começou em Rondônia. E, junto com ela, reapareceu um velho fenômeno da política: a guerra dos números. Em poucos dias, o eleitor já viu levantamentos colocando Marcos Rogério na liderança. Logo depois, outra pesquisa apontou Adaílton Fúria à frente. Em seguida, surgiu mais um levantamento indicando Hildon Chaves em posição de destaque. Afinal, quem está certo? A resposta é simples: nenhuma pesquisa representa o resultado da eleição. Pesquisa é um retrato de um momento específico, feito com determinada metodologia, em determinado período. Ela mede tendências, não entrega o resultado das urnas. É justamente por isso que o eleitor precisa redobrar a atenção. Antes de compartilhar qualquer levantamento nas redes sociais ou tomar uma decisão baseada em percentuais, vale fazer algumas perguntas básicas: a pesquisa está devidamente registrada na Justiça Eleitoral? Quem contratou o levantamento? Qual é o instituto responsável? A metodologia foi divulgada? Quantas pessoas foram entrevistadas? Em quais municípios? Essas informações fazem toda a diferença. Ao longo de eleições passadas, surgiram institutos pouco conhecidos, alguns criados praticamente às vésperas da campanha, divulgando números que provocaram debates, desconfiança e muita polêmica. Isso não significa que todas as pesquisas sejam ruins ou manipuladas. Seria uma injustiça afirmar isso. Existem institutos sérios, técnicos e respeitados, que trabalham com rigor estatístico, transparência e responsabilidade. Esses merecem credibilidade e cumprem um papel importante para compreender o humor do eleitorado. O problema está na proliferação de levantamentos cuja origem, metodologia ou histórico despertam dúvidas e acabam servindo muito mais como instrumento de propaganda política do que de informação. O maior risco é o eleitor trocar a análise dos candidatos pela simples observação dos números. Votar porque "fulano está ganhando" ou abandonar um candidato porque apareceu atrás em uma pesquisa é abrir mão da própria convicção. Democracia não se constrói por efeito manada. As pesquisas podem informar, mas jamais devem substituir o julgamento do cidadão. O voto precisa ser decidido pela história de cada candidato, pela sua capacidade administrativa, pelas propostas apresentadas, pelo plano de governo, pela coerência entre discurso e prática e pelo compromisso demonstrado com Rondônia. Em uma eleição, quem decide não é o instituto de pesquisa, nem a corrente das redes sociais. Quem decide é o eleitor, sozinho diante da urna. Até outubro de 2026, muitos levantamentos ainda serão divulgados. Alguns confirmarão tendências. Outros se mostrarão completamente diferentes entre si. Por isso, o melhor conselho continua sendo o mais simples, olhe para as pesquisas com interesse, mas também com senso crítico. Confira se elas cumprem as exigências legais, conheça quem as realizou e, acima de tudo, não entregue seu voto a um gráfico. Antes de acreditar em qualquer pesquisa eleitoral, vale lembrar que toda pesquisa destinada à divulgação durante o período eleitoral deve observar as regras da Justiça Eleitoral e pode ser consultada no sistema oficial de registro. O eleitor também pode verificar informações diretamente nos portais do TSE e do TRE de Rondônia. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA 
O TAMBAQUI VIAJANTE: Enquanto Rondônia tenta resolver seus problemas do dia a dia, o governador Marcos Rocha embarcou para mais uma longa agenda internacional. Desta vez, o destino é a China. A pergunta que muita gente faz é simples: depois de tantas viagens ao exterior, o que, de fato, ficou para Rondônia? As missões internacionais sempre são apresentadas como estratégicas, repletas de reuniões, protocolos e promessas de investimentos. Na prática, porém, o grande protagonista continua sendo o tambaqui. O peixe de Rondônia já deve conhecer mais aeroportos internacionais do que muitos rondonienses. Se depender da divulgação, logo estará falando mandarim. Viajar faz parte da atividade de qualquer chefe de governo. Buscar mercados, atrair investidores e fortalecer relações comerciais é legítimo. O problema começa quando o custo dessas viagens bancadas com dinheiro público parece produzir muito mais fotografias, discursos e solenidades do que resultados concretos para quem vive aqui. E a viagem ocorre justamente quando o governo entra na reta final do mandato. Se o próprio governador afirma que pretende trabalhar até o último dia da gestão, talvez o maior desafio esteja bem mais perto do que Pequim. Basta percorrer os corredores dos hospitais, ouvir pacientes à espera de atendimento, conversar com quem enfrenta dificuldades na saúde pública ou visitar obras que ainda aguardam conclusão. Rondônia não precisa apenas de vitrine internacional. Precisa de entregas. Precisa de respostas. Precisa de prioridades. Tomara que a bagagem de volta venha carregada de investimentos reais, empregos e soluções. Porque de lembranças de viagens, fotos oficiais e apresentações do nosso famoso tambaqui, o álbum institucional já parece estar completo. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
SPRAY DE PIMENTA; PROTEÇÃO OU NOVO RISCO? A decisão de Porto Velho autorizar o uso de spray de pimenta por mulheres coloca em pauta uma discussão que exige equilíbrio entre segurança e responsabilidade. A proposta tem um objetivo legítimo: oferecer às mulheres mais um instrumento de defesa diante da crescente violência. E isso é inquestionável. Afinal, quem agride uma mulher deveria enfrentar punições muito mais rigorosas do que as previstas atualmente. Mas toda boa ideia precisa ser acompanhada de mecanismos eficazes de controle. O spray de pimenta é um equipamento de defesa, não um brinquedo. Nas mãos de mulheres conscientes, pode evitar uma agressão e até salvar vidas. Já nas mãos de pessoas irresponsáveis ou criminosos, pode se transformar em mais um instrumento para facilitar assaltos, agressões e outros delitos. É justamente aí que mora a preocupação. A legislação estabelece regras para aquisição e uso, mas a realidade costuma ser bem diferente. Sem fiscalização rigorosa e controle eficiente da comercialização, o produto pode chegar facilmente às mãos de quem jamais deveria tê-lo. E vale lembrar: criminosos também têm familiares, companheiras e pessoas próximas que podem adquirir o equipamento. Defender a proteção das mulheres não significa ignorar os riscos que uma medida como essa pode trazer. O desafio do poder público é encontrar o ponto de equilíbrio entre garantir o direito à legítima defesa e impedir que uma ferramenta criada para proteger cidadãos de bem acabe fortalecendo a ação da criminalidade. Boa intenção, por si só, nunca foi sinônimo de segurança. O sucesso da medida dependerá da responsabilidade de quem usa e, principalmente, da eficiência de quem fiscaliza. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
DISCURSO EM MODO REPETIÇÃO: Quem acompanha a movimentação dos pré-candidatos ao Governo de Rondônia já deve ter percebido uma cena que vem se repetindo. Troca-se o município, muda o palco, aparecem rostos diferentes na plateia, mas o discurso continua praticamente o mesmo. É uma sequência de falas sobre o passado, de lembranças dos mandatos, de obras, emendas e cargos ocupados. Tudo isso faz parte da trajetória de quem pretende governar o Estado, mas não responde à pergunta que o eleitor realmente quer fazer: e daqui para frente? A população quer ouvir propostas. Quer saber como cada pré-candidato pretende melhorar a saúde, enfrentar a violência, fortalecer a produção rural, gerar empregos e preparar Rondônia para os próximos anos. Afinal, pedir o voto para governar um Estado é muito mais do que apresentar um currículo ou contar o que já fez. Até agora, falta aquele debate que desperta interesse, que gera esperança e faz as pessoas pararem para ouvir. Em muitos casos, o discurso parece decorado, repetido tantas vezes que já perdeu a capacidade de surpreender. Falta emoção, falta conteúdo e, principalmente, falta apresentar um caminho claro para o futuro. É verdade que a campanha oficial ainda nem começou. Talvez seja cedo para cobrar um plano de governo completo. Mas quem deseja chegar ao Palácio Rio Madeira precisa entender que o eleitor de hoje está mais atento, mais exigente e menos disposto a acreditar apenas em frases de efeito. Rondônia não precisa de candidatos que vivam olhando pelo retrovisor. Precisa de lideranças capazes de mostrar, com clareza e coragem, para onde pretendem levar o Estado. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
POSSE OU ENTREVISTA ÍNTIMA?: Tem coisas que a administração pública insiste em tratar como “procedimento padrão”, mas que, na prática, parecem mais roteiro de reality show ruim do que etapa de posse em cargo público. Em Rondônia, candidatas aprovadas no concurso da Educação relatam terem sido surpreendidas com um formulário que ultrapassa o aceitável — e não é pouco. Perguntar o que é necessário para o exercício do cargo é uma coisa. Outra bem diferente é querer saber da vida íntima das servidoras como se o Estado tivesse virado consultório ginecológico com crachá funcional. Ciclo menstrual, vida sexual, estado gestacional… falta só pedir a cor favorita da calcinha para completar o pacote de “transparência administrativa”. E aqui vale uma separação importante, porque sempre aparece a tentação de jogar tudo no colo do governador. Não é por aí. O problema está na engrenagem técnica da Seduc/RO, que conduz processos via estruturas terceirizadas e, ao que tudo indica, deixou passar um formulário que mais parece ter sido montado por alguém confundindo RH com interrogatório invasivo. Gestão pública não pode ser terceirizada da responsabilidade. A pergunta que fica é simples, direta e até meio constrangedora de ter que fazer: a quem interessa saber se uma professora menstrua, tem vida sexual ativa ou está grávida? Isso melhora aula? Resolve índice educacional? Organiza escola? Ou só alimenta uma burocracia que acha que intimidade virou dado funcional? A legislação, aliás, não costuma ser tímida nesse ponto. Ninguém é obrigado a responder questionário que invade esfera íntima sem relação com o cargo. E quando o Estado precisa recorrer a esse tipo de exigência, talvez o problema não esteja nas candidatas, mas na criatividade excessiva de quem elabora formulários. O mais irônico é que tudo isso acontece justamente na área da Educação, onde se espera o mínimo de sensibilidade, preparo e noção institucional. Mas, aparentemente, o formulário resolveu dar aula de invasão de privacidade. No fim, sobra a imagem de servidoras sendo avaliadas não pela capacidade profissional, mas por detalhes que não dizem absolutamente nada sobre desempenho. E isso, convenhamos, não é gestão pública, é desvio de foco com papel timbrado. Fica aqui o espaço aberto para que a Seduc/RO, caso queira, apresente sua manifestação e esclarecimentos sobre o caso. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
A CASA DAS LEIS E DAS CONFUSÕES SEMANAIS: A Câmara Municipal de Porto Velho vive dias que já ultrapassaram o limite do aceitável para uma Casa Legislativa. O que deveria ser um espaço de debate, construção de leis e representação da população tem sido marcado, com frequência, por episódios de tensão, atritos e desgaste institucional. Nos últimos dias, o presidente da Casa, Gedeão Negreiros, enfrenta o desafio de conduzir um ambiente politicamente instável, onde a rotina de sessões tem sido antecedida por expectativas de novos conflitos. O que se vê no plenário são recorrentes embates entre vereadores, episódios de confronto com jornalistas e ativistas, além de discussões que muitas vezes extrapolam o campo político e avançam para o confronto pessoal. Em alguns momentos, as sessões deixam de ter foco na pauta legislativa e passam a ser dominadas por disputas de narrativa e comportamento. É importante registrar que há parlamentares que mantêm atuação regular e buscam cumprir seu papel institucional com responsabilidade. No entanto, esses acabam dividindo espaço com um cenário de constante tensão, o que impacta diretamente a percepção pública sobre o Legislativo municipal. Somam-se a esse contexto as recorrentes notícias de pedidos e processos de cassação, o que amplia a sensação de instabilidade dentro da Casa. Na prática, o resultado é uma Câmara que tem sido mais associada a conflitos internos do que à produção legislativa. O desafio colocado é de reorganização do ambiente institucional e de retomada do foco no trabalho parlamentar, dentro dos limites regimentais e do papel que a população espera do Legislativo municipal. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
DO PÚLPITO AO PALANQUE: Durante muito tempo, a frase “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” parecia delimitar claramente as fronteiras entre religião e política. Mas, nos últimos anos, especialmente no Brasil, a linha que separa o púlpito do palanque ficou cada vez mais tênue. Em muitos casos, praticamente desapareceu. Hoje, não é raro ver pastores disputando eleições, participando de campanhas, ocupando cargos públicos e influenciando diretamente decisões políticas. A pergunta que surge é inevitável: o que está levando tantos líderes evangélicos a trocar o sermão pelo discurso eleitoral? A resposta não é simples. O crescimento das igrejas evangélicas nas últimas décadas transformou esse segmento em uma das maiores forças sociais do país. Onde existe um grande grupo organizado, existe também interesse político. E onde existe interesse político, aparecem candidatos dispostos a representar esse eleitorado. Não por acaso, surgiu e se fortaleceu a chamada bancada evangélica no Congresso Nacional. Em tese, trata-se de um grupo de parlamentares que busca defender pautas ligadas à fé cristã, à liberdade religiosa e aos valores considerados conservadores. Nada de errado nisso. Em uma democracia, todos os segmentos da sociedade têm o direito de buscar representação política. O problema começa quando a teoria encontra a prática. Porque uma coisa é defender princípios cristãos. Outra, bem diferente, é usar o evangelho como plataforma eleitoral permanente. O eleitor observa. E observa muito. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a líderes religiosos envolvidos em investigações, escândalos, disputas de poder, ataques pessoais e comportamentos que pouco lembram as mensagens pregadas aos domingos. Não estamos falando de todos, evidentemente. Generalizações costumam ser injustas e preguiçosas. Existem pastores e políticos evangélicos que exercem seus mandatos com seriedade, ética e coerência, honrando tanto a função pública quanto a fé que professam. Mas também é verdade que alguns parecem ter descoberto que os corredores do poder podem ser mais atraentes que os corredores da igreja. O resultado é um fenômeno curioso. Enquanto muitos fiéis procuram orientação espiritual, alguns líderes parecem mais preocupados com pesquisas eleitorais do que com passagens bíblicas. Em certos momentos, o comício lembra um culto e o culto lembra um comício. Fica difícil saber se a mensagem é sobre salvação ou sobre a próxima eleição. Em Rondônia, assim como em diversas regiões do país, esse movimento é visível. Pastores disputam prefeituras, câmaras municipais, assembleias legislativas e cargos federais. Alguns chegam à política com propostas legítimas e vontade de contribuir para a sociedade. Outros parecem enxergar no capital eleitoral das igrejas um caminho mais curto para alcançar poder e influência. A questão central não é se um pastor pode ou não entrar na política. Pode. Assim como professores, médicos, agricultores, empresários ou qualquer outro cidadão. O verdadeiro debate deveria ser outro: quando chega ao poder, ele continua representando os valores que dizia defender? Porque o eleitor cristão não procura perfeição. Procura coerência. A política brasileira tem uma fama antiga de engolir boas intenções. Muitos entram prometendo mudanças e acabam sendo mudados pelo sistema. A velha máxima continua circulando nos bastidores: na política, ou você entra para o jogo, ou o jogo trata de expulsá-lo. Talvez por isso a sociedade esteja cada vez mais desconfiada. Não da fé. Não das igrejas. Mas daqueles que usam a fé como atalho para conquistar votos. No fim das contas, o desafio não é levar o evangelho para a política. O desafio é não deixar que a política engula o evangelho. E essa, convenhamos, parece ser uma tentação muito maior do que muitos imaginavam. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
FESTA PARA UNS, ESPERA PARA OUTROS: "Em Rondônia, os cofres públicos parecem ter descoberto uma vocação especial para financiar palcos. De norte a sul do estado, multiplicam-se anúncios de emendas parlamentares para festas, rodeios, exposições e shows. O dinheiro aparece com rapidez para a contratação de atrações e estruturas de eventos, mas a mesma agilidade raramente é vista quando o assunto é hospital sem equipamentos, escola precisando de reforma ou distrito abandonado pelas políticas públicas." E antes que alguém torça o nariz, vale deixar claro: cultura é importante. Festa movimenta a economia, gera renda, fortalece tradições e leva entretenimento para a população. O problema não está no palco. O problema é quando o palco vira prioridade absoluta e o restante do estado fica nos bastidores. Enquanto milhões são destinados para eventos, há pacientes aguardando exames por meses, hospitais enfrentando falta de estrutura, escolas necessitando de reformas e distritos inteiros convivendo com estradas que mais parecem cenário de aventura extrema. Em algumas localidades do interior, uma ambulância tem dificuldade para chegar. Mas para o caminhão do show, curiosamente, sempre aparece um jeito. O mais curioso é que inauguração de leito não rende selfie como camarote. Reforma de escola não gera a mesma repercussão que um cantor famoso. Recuperação de estrada não produz vídeos tão animados quanto fogos de artifício e multidões cantando refrões conhecidos. A impressão que fica é que parte da classe política descobriu que aplauso dá mais voto do que resultado. E assim seguimos: o povo dança na praça à noite e enfrenta filas, buracos e abandono na manhã seguinte. Cultura merece investimento. Sempre. Mas quando hospitais agonizam, escolas precisam de socorro e distritos são esquecidos pelo poder público, a pergunta é inevitável: estamos financiando prioridades ou apenas patrocinando palcos para discursos políticos? Porque festa dura um fim de semana. O abandono, infelizmente, permanece o ano inteiro. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
RONDÔNIA RURAL SHOW OU SHOW ELEITORAL? Se alguém chegasse de paraquedas na Rondônia Rural Show sem saber do que se trata, poderia facilmente concluir que o evento foi criado para reunir pré-candidatos em seu habitat natural. Tratores, implementos agrícolas, tecnologias para o campo e animais de genética apurada até estavam por lá, mas precisavam disputar espaço com uma espécie ainda mais abundante: os políticos em busca de visibilidade. Era deputado abraçando produtor, senador cumprimentando expositor, pré-candidato gravando vídeo, líder político distribuindo sorrisos e assessor correndo atrás com celular na mão. Em alguns momentos, parecia que o eleitor havia se transformado em uma raridade da feira. Onde aparecia um, logo surgia uma fila de interessados em apertar sua mão. A corrida pela popularidade chegou a níveis curiosos. Havia quem atravessasse corredores inteiros apenas para garantir uma foto estratégica. Outros pareciam cumprir uma maratona eleitoral não oficial, acumulando selfies, acenos e discursos improvisados em velocidade digna de competição olímpica. O mais interessante é que ninguém estava fazendo campanha. Pelo menos oficialmente. Era apenas uma impressionante coincidência ver tantos nomes que sonham com as urnas concentrados no mesmo lugar, falando com o mesmo público e registrando cada passo nas redes sociais. Tudo dentro da mais absoluta normalidade institucional, claro. Enquanto o agronegócio fechava negócios milionários e discutia o futuro da produção rural, boa parte da classe política parecia preocupada com outra colheita: a dos votos que poderão amadurecer em 2026. No fim das contas, a Rondônia Rural Show continua sendo uma vitrine do agronegócio rondoniense. Mas ficou difícil ignorar que, entre uma máquina agrícola e outra, muitos já estavam medindo não a produtividade da terra, mas a fertilidade eleitoral do terreno. POR PAULO DE TARSO - JORNALÍSTA
FISCALIZAÇÃO OU CAÇA-CLIQUE? Tem uma moda pegando em Rondônia, e em Porto Velho isso já virou quase “reality show político”. Tem vereador que trocou gabinete por ring light, reunião por reels e fiscalização por produção de conteúdo. Sai de dia, sai de noite, celular na mão, câmera ligada e discurso ensaiado, como se estivesse numa mistura de influencer com xerife da internet. Aí entra em posto de saúde, escola, repartição pública e faz do servidor o personagem principal do vídeo. Enfermeira cansada depois de plantão puxado, professor tentando segurar sala lotada, técnico trabalhando em prédio caindo aos pedaços… tudo vira palco para lacração digital. E claro, postagem, corte, música dramática e legenda pronta para ganhar curtida e comentário revoltado. Fiscalizar? Claro que é obrigação do vereador. Aliás, é uma das principais funções. Mas fiscalizar o quê? O servidor que está ali tentando fazer milagre sem estrutura? Ou o Executivo que administra milhões em orçamento público? Porque é muito mais fácil constranger trabalhador na frente da câmera do que apertar secretário, cobrar contrato, investigar gasto suspeito ou exigir transparência de quem realmente manda na máquina. Tem profissional da saúde comprando material do próprio bolso. Professor tirando da própria renda para ajudar aluno. Servidor adoecendo por excesso de trabalho e salário apertado. Mas, no vídeo de internet, parece que o culpado pelo caos é justamente quem está segurando o rojão. E o pior, parte da população acaba confundindo espetáculo com trabalho sério. Vereador não foi eleito para ser influencer da indignação. Foi eleito para legislar, fiscalizar contratos, acompanhar orçamento, cobrar resultados e defender a população com responsabilidade, não com humilhação pública de trabalhador. POR PAULO DE TARSO